23.3.14

EU VI O GOLPE

SEBASTIÃO NERY -

Deputado pela Bahia, o golpe de 31 de Março de 1964 me pegou no Rio. No dia 13, fui ao “Comício das Reformas”, na Central do Brasil. Na madrugada de 26, o Palácio dos Metalúrgicos, na Zona Norte, superlotado de marinheiros, trabalhadores, estudantes e políticos, parecia filme da Revolução Francesa.

A meu lado, na ponta da mesa, um velhinho negro, alto, magérrimo, cabelos brancos, esfregava as mãos emocionado: 
    
- Eu nunca pensei que ia ver o fim da Lei da Chibata. 
      
De repente a multidão se pôs de pé, gritando:  
                                    
- João Cândido! João Cândido!   
                                                               
Também me lembro do presidente da Associação dos Cabos e Marinheiros, o cabo Anselmo, com sua fardinha de escoteiro, calça comprida, os cabelos pretos bem penteados, o rosto muito branco.                                                                 
            JANGO   
                                                  
Outra madrugada, de 30 de março. No Automóvel Clube, o ministro da Justiça Abelardo Jurema, os sargentos Antonio Prestes e Garcia e o cabo Anselmo. O presidente João Goulart jogou a última lauda do discurso sobre a mesa e de improviso jurou para o auditório emocionado que a política de conciliação chegara ao fim e as reformas seriam conquistadas nas ruas.

Lá atrás, tenso, Oswaldo Gusmão, assessor de Jango, redator do discurso, me contou que, antes de sair do Laranjeiras para o Automóvel Clube, o Presidente se havia trancado com Tancredo Neves, do PSD:                                                                                                                     - Presidente, não vá, Se o senhor for, o senhor cai.   
        
 Jango foi. Jango caiu.                                                                       
                                   BRIZOLA      
                                                
Na manhã de 31,  entro no hotel Serrador, carregado de jornais. O golpe estava nas manchetes: Jornal do Brasil, Globo, Correio da Manhã, Tribuna da Imprensa, Diário Carioca, todos unânimes pedindo a derrubada de Jango. Só a Última Hora de Samuel Wainer resistia e defendia Jango.

Acordo com um telefonema de Minas. Magalhães Pinto tinha posto a Polícia Militar nas ruas e o general Mourão Filho marchava de Juiz de Fora para o Rio à frente das tropas. Fui para a casa do deputado Max da Costa Santos, no  telefone com Brizola em Porto Alegre. Perguntei:    
        
- Brizola, que vamos fazer?

- Resistir de toda maneira. É um golpe dos americanos com tropas brasileiras. O Jango está hesitando. Aqui no Rio Grande vou com o povo ocupar o palácio. É preciso segurar o Lacerda aí. Ocupem a Mairink Veiga.

                                    RÁDIOS

Fomos. Falamos. Começou a chegar gente. Denunciamos o caráter norte-americano do golpe. De repente, caminhões da Polícia Militar de Lacerda cercavam a rádio. Chamamos os  Fuzileiros Navais. Enquanto não vinham, pusemos velhos fuzis e metralhadores com os bicos enfiados nas janelas para dar a impressão de estarmos bem armados. A PM não subiu.    

 Lembro o ridículo de me ver atrás de uma velha metralhadora apontando em frente para o botequim do português aos gritos:         
                          
- Aponta pra lá, doutoire! Aponta pra lá, doutoire!      
                   
No carro do deputado Ferro Costa, fomos  para a Radio Nacional, onde muitos falamos. Na saida, o carro não pegou. Ansiosos, nervosos, empurrando o calhambeque, viamos caminhões do Exercito e da PM cruzando a Rio Branco em disparada. Uma chuva miúda caia no asfalto. O carro pegou, entrei exausto, com profunda sensação de derrota e tristeza.   
        
Estava tudo se acabando. Fomos para os “Correios”. Gente cochilando nas escadas, corredores e poltronas. Um homem roncava em um sofá, fuzil do lado. Cabo Anselmo, metralhadora no ombro, dava ordens:       
        
- Prendam, sim! Nada disso! Prendam! Se resistir, fogo!

                                  EXÉRCITOS

Ultimas notícias: o II Exercito já havia aderido ao golpe desde meia-noite, o I Exercito acabava de aderir, o IV Exército prendera Arraes. Só o III estava dividido, em Santa Maria e Passo Fundo. Um deputado me diz: 
     
- Nery, uma frase para a história. O ministro da Marinha disse aos oficiais:

- “Estão liberados. É duro lutar contra o imperialismo agonizante”.   
  
Ainda consegui rir. Alguém entra esbaforido:

             - A Polícia de Lacerda está chegando!    
                                              
Saimos rápido pelas escadas laterais. Um taxi providencial. Na Cinelândia, cadáveres ensangüentados frente ao Clube Militar. No Flamengo, a UNE queimava. Labaredas nas janelas. Choramos em silêncio.