16.3.14

LEMBRANÇAS DE BALBINO

SEBASTIÃO NERY -

Eu estava morando e trabalhando em Paris (como Adido Cultural na Embaixada Brasileira), quando morreu em Salvador Antonio Balbino, aos 80 anos, em 5 de maio de 1992.  

Pelos jornais e revistas brasileiros que li lá,  o Brasil foi frio. A Bahia não tanto, mas também. Não somos a Europa, que cuida de seus grandes mortos. E Balbino deixou plantada na história política dos últimos 50 anos uma forte presença. Era um homem culto, excepcionalmente inteligente e discretamente, mas sensivelmente muito bom.

DITADURA

Muitos de nós, que durante 20 anos fizemos a briga (alguns, como eu, só a resistência, as prisões, as pancadas, outros até a luta armada) contra a ditadura, tivemos dele,em instantes duros, uma solidariedade providencial.

Waldir Pires, Mário Lima, Francisco Pinto, Helio Ramos, eu, tantos outros, ou saímos da cadeia ou voltamos do exílio ou nos livramos de   IPMS (Inquéritos Policiais Militares) e processos pela mão sábia dele.

         Devo-lhe uma absolvição no Superior Tribunal Militar que parecia impossível. E o fim de uma ordem de prisão assinada e já embalada. Ele resolvia depois sorria: - “Tome juízo. Não os desafie. Eles têm os canhões”.
        
            NOVA BAHIA

           Balbino tem um título que a Bahia lhe deve : é o pai da nova Bahia. Foi ele que começou a modernização do Estado. Governador em 1954, entregou ao grande Rômulo Almeida o planejamento da nova Bahia industrial.Com ele, Rômulo criou a Comissão de Planejamento Econômico, a nossa saudosa CPE, da qual nasceram o Centro Industrial de Aratu, o Polo Petroquímico, a Coelba, a Tebasa, a redescoberta do Recôncavo.

             Juracy Magalhães, Lomanto Junior, Antonio Carlos, Roberto Santos, todos depois andaram caminhos abertos por Balbino e Rômulo, em um planejamento inteligente, responsável, com visão de futuro.
                                     
SABIO

Balbino era um sertanejo culto e sábio. Sabia das coisas. Sabia de tudo. Dos políticos da Bahia, só Octavio Mangabeira rivalizava com ele em inteligência e cultura. Nasceu em Barreiras (22 de abril de 1912), estudou em Salvador, foi jornalista no Rio (em “A Noite”, do tio Geraldo Rocha).  
  
Formou-se em Direito no Rio em 1932, orador da turma com 20 anos. Em 1933 e 1934 estudou Economia Política em Paris, na “Sobornne”.

         Voltou à Bahia e se elegeu deputado estadual no fim de 1934, com 22 anos, na chapa da oposição a Juracy, interventor de Getúlio. Com o golpe de 1937, perdeu o mandato, virou brilhante advogado, jornalista e professor: de Sociologia, Lógica, Finanças e História das Doutrinas Econômicas, nas Faculdades de Filosofia e Direito de Salvador.

             GOVERNADOR

         Em 1945, derrubado Getúlio, candidatou-se à Assembleia Nacional Constituinte pelo PPS (Partido Popular Sindicalista). Perdeu. Em 1947, entrou para o PSD e se candidatou à Assembleia Legislativa da Bahia. Elegeu-se e foi o relator da Constituição baiana.

Em 1950, elegeu-se deputado federal. Em 1953 já era ministro da Educação de Getúlio. Em 1954, governador da Bahia, derrotando Pedro Calmon. E em 1961, procurador-geral da República de João Goulart. 

Em 1962,  foi eleito senador pela Bahia e logo ministro da Indústria e Comércio. Com o golpe militar de 1964, ficou com a oposição, ajudou a fundar o MDB e cumpriu o mandato até o fim, em 1971, quando voltou para o Rio, criando uma das mais poderosas bancas de advocacia do País. 

464 ANOS
                                              
         No próximo dia 29 de março, a Bahia celebra mais um aniversario: 464 anos (Tomé de Souza chegou a Salvador em 1549). É hora de relembrar seus fundadores e alguns de seus maiores filhos.

Nesse Pantheon, por direito de nascimento e de presença na
Historia,  estará sempre Balbino, com sua cultura, sua sabedoria,  seu sorriso bom.