10.3.14

O PUTIN DA KGB, VOLTOU, ASSUSTA O MUNDO. DEPOIS DO BLEFE DE OBAMA NA SÍRIA, DA IMPRUDÊNCIA E DOS INTERESSES E AMBIÇÕES, QUALQUER CONCLUSÃO É IMPREVISÍVEL

HELIO FERNANDES –

Pouco antes do carnaval, o clima internacional era de total incerteza, a palavra mais pronunciada, GUERRA. Muitos acreditavam que poderia ser total, outros, mais otimistas ou melhores analistas, ficavam no confronto e na invasão da Ucrânia e da Crimeia, pelas tropas do arrogante Putin.

Agora, no fim do carnaval, as coisas melhoraram um pouco, mas não há claridade, credibilidade ou visibilidade sobre o que irá acontecer. A primeira conclusão, inacreditável: como é que um homem sozinho, Putin, pode desestabilizar e intranquilizar o mundo inteiro? É o massacre da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, três palavras que iluminaram a Revolução Francesa.

Obama desapareceu do mapa

O presidente dos EUA, que era considerado um dos homens mais poderosos do mundo, jogou fora todo o cacife no blefe e na incontinência a respeito da guerra civil da Síria. Durante dias não saiu da televisão e das manchetes, criou, inventou e propagou a “guerra sem tropas”, “sem combatentes”, “sem ataque” e portanto “sem defesa”. Todos acreditaram, incluindo o ditador ostensivo, Assad, e o também ditador Putin. Só que este agindo mais nos bastidores.

Obama deu prazo, primeiro 24 horas, depois 48, foi se estendendo. Assad e seu grande aliado Putin, percebendo que os EUA estavam blefando, foram acumulando propostas aleatórias, discriminatórias, aparentemente “pacificadoras”.

Enganaram o homem-potência  

Sugeriram que a Síria entregasse “todo o seu arsenal de armas químicas”, Obama aceitou logo. Putin e Assad festejaram imediatamente. A seguir o próprio Assad reforçado pelo ex-membro da KGB, fez a proposta: reunião de paz na Suíça, o próprio Assad disse, “vou participar”.

A audácia de Putin, agora, vem direto do recuo de Obama

É impossível analisar a espantosa invasão da Ucrânia e da Crimeia, sem lembrar ou relembrar, como fiz, o episódio da frustrada e enganosa “invasão” da Síria por Obama. E da Geórgia, terra de Stalin em 2008. O presidente dos EUA acreditou e se vangloriou que “recolher milhares de armas químicas”, enterradas nos mais diversos e quilométricos terrenos, seria facílimo.

Os meses foram passando, Assad se fortalecendo no Poder, cidadãos morrendo, Putin, orgulhoso e protegido pela fraqueza e fragilidade dos EUA. E preparando a demonstração de força para elevá-lo, não só politicamente, (de forma geopolítica), mas econômica e financeiramente, se colocando na condição de grande personagem.

Putin assusta e faz “concessões”, mente despudoradamente, todo dia  

É visível que uma afronta ao mundo, como essa, não é preparada e executada da noite para o dia, de uma hora para outra. É necessário tempo, e isso é o que não falta ao presidente-Primeiro Ministro-presidente da Rússia, Vladimir Putin.

Agora ninguém enfrenta Putin, qual deles? O da KGB que voltou? Ou o presidente que “vira” Primeiro Ministro e vice-versa, zombando de todos?

Quando a União Soviética desapareceu em 1991, na véspera do Natal por excesso de incompetência, de tirania, de crueldade, como acontece em todas as ditaduras, Putin, com 38 anos, já pertencia à KGB. E firmava influência. Não podemos esquecer que a União Soviética foi a primeira a ir ao espaço. (Gagarin não foi à Lua, mas disse, lá do alto, “a terra é azul”, uma cor agora condenada).

Construíram o primeiro submarino nuclear, possuíam o maior arsenal de armas militares, superior ao dos EUA. Arsenal que com outras roubalheiras de petróleo, enriqueceram pelo menos 14 da lista dos 100 mais ricos da Forbes e da Fortune. Mas não conseguiam fazer um liquidificador. E o carro que fabricaram, o Lada, não andava mais de 10 quilômetros sem parar numa oficina. Desapareceu, junto com a União Soviética.

A Guerra Fria com os dólares falsos dos EUA

O general Marshall, que dirigiu a força militar dos EUA na Segunda Guerra Mundial, ganhou também a paz. Percebendo que a Europa inteira, poderia se tornar comunista, criou o plano com seu nome. Com BILHÕES DE DÓLARES, já transformados em moeda universal em Bretton Woods, 1944. (Como contei noutro dia).

A “guerra fria”, de 1948 a 1991, o mais extraordinário desperdício de dinheiro, o fim de uma Era

Três anos depois de terminada a Segunda Guerra Mundial (a verdadeira) chegou à Europa o primeiro cheque de 150 BILHÕES de dólares, naquela época, realmente uma fábula. (Mesmo sendo papel pintado, o que pouca gente sabia).

Toda a Europa dizimada, destruída, desempregada, sem saber o que fazer. Recebeu o dinheiro e se aliou aos EUA. Nesses 43 anos, (de 1948 a 1991) os dois lados gastaram mais do que o mundo todo na guerra de 1939 a 1945. Só que os EUA não sofreram nem perderam nada, a União Soviética se arruinou.

A “guerra fria”, tinha um ponto favorável, não haveria “guerra quente”   

A Segunda Guerra acabou em 8 de maio de 1945. Em setembro de 1946, fiz minha primeira viagem à Europa. Acabei de “cobrir” a Constituinte que promulgou a Constituição de 46. Foi o meu primeiro grande trabalho de reportagem, mocíssimo.

Embarquei, cheguei em países alucinadamente destruídos, cidades que despareceram, como Coventry na Inglaterra ou Colônia, na Alemanha. Só citei de passagem, visitei tudo.

Os EUA pretendiam acabar com a União Soviética, que não percebeu

Essa portentosa “guerra fria”, um espetáculo jamais visto de desperdício de dinheiro. Torturas mortais de lado a lado, espiões americanos e soviéticos comprados várias vezes, e pagos pelos mesmos intermediários. Jamais nos EUA conseguiram fazer levantamento sobre as fortunas gastas nesses 43 anos. A União Soviética não teve nem tempo, desapareceu.

O primeiro acordo: acabar com a tortura

Americanos e soviéticos eram torturados da mesma forma selvagem. E como ninguém resiste à tortura, “falavam”. Eram criticados, chamados de “traidores”.

Duas coisas para as quais não há salvação ou solução. 1 – Ser torturado por amadores, que não sabem onde parar. 2 – Tortura para revelar o que não sabe. Está é a mais cruel, como satisfazer o torturador, se você não tem o que contar ou delatar?

Convencidos finalmente, de que não havia traição e sim incompatibilidade física diante da tortura, se acertaram: continuavam fazendo prisioneiros, mas sem tortura. E como os dois países tinham os mesmos interesses, ninguém desrespeitou o acordo, a selvageria e a crueldade desapareceram.

Então espiões soviéticos e americanos tomavam conhecimento digamos de 10 por cento “da missão”, o resto chegava a eles por trajetórias inimagináveis.

Putin, então com 38 anos, agora com 60, dono poderoso “dono” do mundo

Na véspera do Natal de 1991 a União Soviética sumiu, depois de 74 anos de existência e incompetência. Imediatamente surgiu o desequilibrado e viciado em álcool, Yeltsin. Durante algum tempo divertiu o mundo, jornalões e televisões de quase todos os países festejavam suas bebedeiras e suas quedas. Fazia parte do plano de desmoralizar uma possível, na verdade impossível, volta da União Soviética. Yeltsin ficou até que não interessou mais.

Depois do viciado, o traidor Gorbachev

Yeltsin desequilibrado pessoalmente pelo vício, acabou derrubado politicamente. Do vício, se levantava depois de horas. Do Poder e da política, nenhuma chance, Gorbachev já se acertara com os americanos. E Putin, desses 10 anos, garantido e fortalecido na KGB, surpreendente e idiotamente protegido pelos americanos, foi eleito presidente.

Ninguém explica como chegou, mas chegou

A traição de Gorbachev, e o roubo das maiores riquezas da União Soviética, não podiam durar muito. Um só exemplo, entre vários: Irã e Iraque travaram guerra devastadora, de 2 anos, os dois países utilizando do primeiro ao último dia, armas soviéticas.

Compradas no “câmbio negro”, com antigos líderes vendendo e recebendo o dinheiro no exterior, onde estavam “asilados”. Com o conhecimento pessoal de Putin. Que publicamente não dizia nada, se aproveitava política e eleitoralmente. Putin conhecia muito bem os “asilados”, todos serviram à URSS.

No Poder, “inventou” a fórmula da continuação e do rodízio, sem crítica

Presidente, com desconfiança de muita gente mas sem protesto, começou a trabalhar a permanência, sem reeleição. Considerou que a reeleição, inconstitucional, seria risco muito grande. Colocou então um coadjuvante como Primeiro Ministro, “ocupava” simultaneamente os dois cargos.

De presidente a Primeiro Ministro

Terminado o mandato de presidente, elegeu o coadjuvante, que ficara no lugar dele como Primeiro Ministro. E se empossou como substituto. Ninguém protestou em lugar algum, outra vez o mandato terminou. Nenhum problema, novamente presidente e o coadjuvante “generosamente”, Primeiro Ministro.

Agora, Putin se prepara para novo intercâmbio de cargos. Quem sabe pretende outra forma também duradoura mas não tão evidente? Haja o que houver é um “vitorioso”, mesmo com aspas.

O mundo se rende a ele quando afirma, “não invadirei a Ucrânia” que já invadiu. Ou mudando de rumo e de dicionário, garante: “Não estou pensando em guerra, mas não afasto a possibilidade de conflito”.

De contradição em contradição, assusta

Depois do fim da Segunda Guerra Mundial em 1945. Das duas bombas que o insensato Truman despejou em Hiroshima e Nagasaki. Das derrotas dos americanos na Coréia. No terrível desastre do Vietnã, analistas de todos os calibres e diplomas, bombardeavam o mundo com as próprias conclusões: “A partir de agora, só existirão guerras localizadas. Não há mais o perigo de uma Terceira Guerra Mundial, que obviamente seria nuclear”.

Obama e os EUA, agora desarmados, política, econômica e militarmente, não podem quase nada  

Tenho que terminar, tudo pode acontecer. O mundo se assustou de verdade. Putin, com represália violenta, respondeu ao blefe de Obama sobre a Síria. Os EUA, como potência militar e econômica, não podiam fazer ameaça vazia. Se Obama tivesse cumprido o que retumbou no mundo, Putin não teria avançado tanto agora.

Quem vai parar Putin, ressuscitar Obama?

Por enquanto não há resposta, mesmo por que, Putin não pergunta nada, vai invadindo e pronto. Acontece que Obama e os EUA não têm mais gás para coisa alguma. Países da Europa, ligados à Putin por gasodutos, se transformaram em pacifistas.

A China, poderosa, assiste a tudo numa posição privilegiada. Lógico, não quer a Terceira Guerra Mundial. Mas não faz nem fará um gesto para fortalecer Obama e os EUA. Prefere conversar com Putin e a Rússia. Satisfeitíssima. Ao contrário do resto do mundo.

Em suma: o ex-comunista Vladimir Putin, sonha em ser um Romanov. É o seu colossal projeto imperial-ditatorial. Pode até escrever um livro com o título: “De comunista a Cezarista”. Senhor de “todas as Rússias”. Como era antes de 17 de Outubro de 1917.

Obama, desolado, desencantado, desesperado, desesperançado, errou na estratégia e na trajetória. E com isso, não percebeu que comprometia a Liberdade e a Democracia.