2.4.14

A INFLAÇÃO QUE MANTEGA E TOMBINI NÃO CONTROLAM. DELFIN NETTO, COM INFLAÇÃO A 20 POR CENTO, É CRITICADO POR EDMAR BACHA, COM MAIS CREDIBILIDADE

HELIO FERNANDES

Por mais pessimistas que sejam, os economistas não conseguem colocar a inflação dentro de suas estimativas. Sejam tão otimistas quanto precisam, o Ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central, não conseguem manter essa inflação na casa dos 6 por cento. Basta ver janeiro, fevereiro e março.

O mesmo raciocínio vale para juros e a cotação do dólar. O BC perdeu a batalha da Selic, já “sinalizou vamos aumentar”. Quanto ao dólar, o governo não sabe o que fazer. Diz, “O câmbio é flutuante”, mas diariamente entra no mercado, tentando influenciá-lo.

E o mais grave, sujeito a críticas de todos os lados. Qual é o preço razoável para todos? Estava em 1,70 o presidente do Banco Central, (independente), afirmava: “Assim é impossível”. Foi a 2,40, repetiu a frase não obteve o menor sucesso.

Delfim Netto, o torturador da economia

O jornalista Agnaldo Novo fez entrevista com o famoso Ministro da Fazenda, quase “governador” de São Paulo, embaixador na França, Ministro da Agricultura e novamente da Fazenda. Pelas perguntas, a constatação: tentou fazer um trabalho sério. Pelas respostas, o óbvio: ficou hilariante.

O repórter não tem culpa. Até mesmo os generais confessam, confirmam, concordam: nunca se torturou tanto quanto nos tempos de Médici. E vem Delfim Netto e sem escrúpulos, sem caráter, sem constrangimento, garante: “Uma vez perguntei ao presidente Médici se havia tortura. Ele me disse que não, acreditei nele”.

A falsidade das afirmações

A tortura, seus executores ou responsáveis, eram assuntos intocáveis, indiscutíveis. Não havia possibilidade de se falar no assunto. Principalmente um civil como Delfim. Ainda mais na fase em que Delfim “construía a ponte Rio-Niterói”, conseguindo um empréstimo na Inglaterra a juros de 14 por cento.

(Quase na mesma época em que Carlos Lacerda, governador eleito da Guanabara, acabava com a crônica seca do Rio. E com empréstimos de 1 5/8, tudo acertado pelo então secretário Helio Beltrão).

Edmar Bacha e Delfim Netto

Sempre gostei muito do Bacha, principalmente na primeira fase da sua carreira. A vida pública é difícil. Em determinado momento, teve que dar uma parada breve. Escrevi sobre os dois períodos.

Agora, para colocar Delfim Netto no seu devido encarceramento de economista, basta apenas citar o comentário de Bacha: “Estamos vendo o inflacionismo de volta, um inflacionismo muito perverso, do tipo do Delfim Netto, quando a inflação estava em 20 por cento”.

PS – Parabéns ao Aguinaldo, Delfim está coberto de razão, quando diz, “não tenho nada do que me arrepender”. Não tem mesmo. Nem arrependimento nem constrangimento.

PS2 – Nem mesmo do que acontecia no famoso restaurante Bistrô. Quando o jornalista Oliveira Bastos era barbaramente agredido, ele ria e exaltava, “as noites do Bistrô, são inesquecíveis”.

PS3 – Criativo, para elogiar Dona Dilma, escreve artigo sobre “a doméstica que virou manicure”. Há! Há! Há!

O Supremo não pode julgar cidadão-comum, que renunciou

Por 8 votos a 1, o Supremo devolveu o processo do ex-governador Azeredo, para a primeira instância. Como renunciou, não tem mais foro privilegiado. Nenhum ministro encampou a afirmação do Procurador Geral, de que ele renunciou para fugir do julgamento pelo Supremo.

Isso é pura adivinhação. A renúncia é um ato de vontade, irreversível e não sujeito a qualquer interpretação. O Procurador também disse, “ele renunciou para que haja prescrição do processo”. Ora, o processo só prescreve em 2018. Serão quatro ou cinco anos de angústia para o ex-governador.

“Não foi assim como dizem hoje”

O brilhante professor da Universidade de Brasília, fez comentários magníficos a respeito do que faziam e fizeram ou não fizeram tantos em 1964. E comparou com o que apregoam hoje.

Daí o irrevogável título do artigo. Com uma frase indiscutível: “O mundo não está dividido entre mocinhos e bandidos, mesmo que muitos sejam mais bandidos do que mocinhos”.

Dona Dilma e o PMDB

É preciso ler e interpretar cuidadosamente. Colocaram como frase da presidente: “O PMDB só me dá ALEGRIA”. É parecido, mas seu comentário é este: “O PMDB só me dá ALERGIA”.

Hoje, mais aumento na Selic

No final de outubro, início de novembro, escrevi: “Os juros estão em 10,25, chegarão agora ou em 2014, a 11 por cento cravados”. E concluí: “Daí em diante não sei mais nada, só que o clima não é otimista. É preciso adivinhar, o que não gosto de fazer”. 

Hoje, quarta feira, chegará a esses 11 por cento dos quais falei há meses. Daí em diante, eu, Tombini e todo o BC não sabemos de nada. É possível que haja um “estacionamento na movimentação”. Para cair ou para subir mais?
A taxa Selic é tão impenetrável a partir dos 11 por cento, quanto o dólar. Presidente e Ministro da Fazenda não entendem nada. Não sabem se querem dólar para CIMA ou para BAIXO. Incompetência contamina.

Como meu tempo limite para entregar a matéria é 19 horas, o BC ainda não “revelou” a decisão. Geralmente faz a comunicação por volta de 20 horas. Nenhuma importância. 

PS – Heleno Filho, é tudo memória. Vivi muito, participei muito, sempre sendo considerado o jornalista mais bem informado do país. Depois da anistia ampla, geral e irrestrita, destruíram todo o edifício do jornal. O arquivo do jornal, que ficava lá atrás no terceiro andar, foi preservado. 

PS2 – Mas meu arquivo pessoal, incluindo centenas de cartas recebidas e mandadas por mim, destruídas. Não sobrou nada. Fiquei condenado à memória, que veio comigo do berço, apenas fui colocando combustível. 

PS3 – Não tenho o que consultar, o arquivo do jornal está fechado há cinco anos, não há como subir lá. 

PS4 – Na semana passada, gravei para o grande documentarista, Silvio Tendler, 2 horas para o que vai se chamar, “Democracia e Ditadura”. Quando acabou, sem parar sequer para beber água, ele comentou: “Que memória, que participação”.

PS5 – Semana passada, também gravei para o Alberto Dines, o que ele chamou de “depoimento Histórico”. Acho que será exibido na televisão, rádio Ministério da Educação e Internet, na terça feira, dia 22. 

PS6 – Às vezes costumo dizer: “Minha forma de expressão é a palavra escrita mas é também a palavra falada”. Só que esta raramente permitem que eu execute. Combati demais, certo ou errado, não importa, combati. 

PS7 – Por isso “fui amaldiçoado”. Principalmente pelas multinacionais, que sempre mandaram no país. Antes, durante e depois do golpe. 

PS8 – Em 1955, viajando com Juscelino como presidente eleito e ainda não empossado, paramos em Roma, ficamos no Hotel Excelsior, na Via Venetto, bem ao lado da impressionante fortaleza que era a embaixada dos EUA na Itália. 

PS9- Por volta das 9 da noite, JK me chamou: “Helio, queria visitar o Moisés de Michelangelo, me disseram que você sabe onde está”. 

PS10 – Respondi: “Presidente, está numa igrejinha pequena, San Pietro in Vincoli, perto do Coliseu. Deve ter um padre, sabendo que é o presidente do Brasil, facilitará tudo, foi o que aconteceu, JK maravilhado.

PS11 – Na volta, no carro, JK perguntou: “Helio o que você vai ser no meu governo?”. E eu: “Nada, presidente”. Ele olhou surpreendido, perguntou: “Você não acredita que eu faça um bom governo?”. 

PS12 – Disse que não, parei por aí. Mas o presidente insistiu: “Você me deve uma explicação”. Respondi então: “Presidente, não quero ser nomeado para nada por ninguém, no meu projeto de vida entra a possibilidade de ser presidente da República”. 

PS13 – JK me olhou seríssimo, respondeu: “Puxa, Helio, minha admiração por você cresceu muito. Aos 35 anos já querendo ser presidente, esplendido. Eu só fui pensar em ser governador aos 50 anos, e presidente só no ano passado”. 

PS14 – Depois, uma gargalhada bem típica dele, me abraçou, disse: “Pelo menos não vou enfrentar você, serei presidente novamente em 1965, você ainda estará com 45 anos, não te enfrentarei”. E contou a conversa para todos. 

PS15 – Infelizmente 1965 não existiu para ninguém, a não ser para os generais golpistas e torturadores. Nesse mesmo 1965, comecei a campanha para deputado pelo MDB autêntico. Todas as pesquisas me colocavam como o mais votado. 

PS16 - Na campanha, invariavelmente me perguntavam: “Helio, você um jornalista importante, para quê pretende ser deputado? Minha resposta, sempre: “Se eu for eleito agora com a grande votação que esperam, em 1970 serei candidato a governador e em 1975 a presidente”.

PS17 – Me preparei para isso. Generais ambiciosos, despreparados e sem visão, arruinaram o país. Deu nisso que está aí, e não parece acabar. 

PS18 – Heleno Filho, obrigado pela pergunta que desenterrou estas lembranças. Todas autênticas, mais da metade delas, dolorosas. Mas nenhuma de arrependimento.

P19 – Um ano antes Costa e Silva pediu demissão do comando do II Exército. (SI). Disse que pretendia viajar pelo Brasil todo, “há muito tempo não faço isso”. Cabia ao presidente da República fazer o remanejamento. 

PS20 – Jango nomeou então para esse poderoso II Exército o general Amaury Kruel, a quem apelaria no dia 30 de março. Kruel praticamente “despachou” Jango, este também se desinteressou, desligou. 

PS21 – Ninguém sabia, e Jango muito menos, os generais estavam de “prontidão” desde 1960, quando perderam, não conseguiram dar plenos poderes a Jânio, “o trêfego peralta”.

PS22 – E no dia 6 de janeiro de 1963, quando o presidencialismo voltou e Jango reassumiu com todos os poderes, se iniciou ou se prolongou a luta de bastidores entre o presidente e alguns generais.

PS23 – Jango não percebeu, (era difícil que ele percebesse alguma coisa fora da própria ambição) mas os generais sabiam muito bem o que pretendiam. E tinham a força. 

PS24 – No dia 30, Castelo Branco recebeu telefonema de Minas, do general Carlos Luiz Guedes, comandante da ID-4, a infantaria divisionária do estado. Comunicado resumido: “O coronel Mourão Filho quer sair de Minas com as tropas e ir para o Rio”. 

PS25 – Castelo ligou diretamente para o governador Magalhães Pinto, não deu nem bom dia, perguntou: “Governador o que está acontecendo com o Mourão Filho?”. Resposta: “Não consegui contê-lo, ele foi para o Rio comandando a tropa”. 

PS26 – O general desligou e tomou providências. Determinou que uma tropa seguisse imediatamente para encontrar Mourão Filho no caminho, “E diga que eu ordenei que ele voltasse”. 

PS27 – Essa tropa seguiu, encontrou Mourão, “confraternizaram”, (a palavra está no relatório), mas o coronel nem admitiu voltar, o que fazer? 

PS28 – Chegaram no Rio, as tropas foram para o Maracanã, Mourão Filho chamado ao Ministério da Guerra, na Central do Brasil. Ninguém sabia o que fazer com ele. 

PS29 – Puni-lo? Estrategicamente, hierarquicamente, militarmente ele quebrara todas as cadeias de comando e de ação. Mas fizera o que os generais queriam e iriam fazer. 

PS30 – Castelo, então no comando de tudo, e com a quase garantia de que seria empossado presidente, (“presidente”) pelo Congresso, montou sua campanha na casa de um médico de Minas. Com ele só o general conhecido como “tico-tico”, seu nome Ademar de Queiroz, um dos raros generais que esteve na FEB. 

PS31 - Os generais de famílias militarmente tradicionais, ficaram aqui, ninguém quis saber de ir para a Itália. O então major Golbery, foi em 1944, quando a FEB estava voltando. Sua missão: “Organizar essa volta”. Genial em matéria de carreirismo. 

PS32 – Para mim, o dia 30 de março de 64 foi o último da legalidade-ilegalidade. Dia 31 a quase ascensão dos golpistas. 

PS33 – O golpe verdadeiro seria “glorificado-consagrado-santificado”, a partir de 1º de abril. Não conseguirão mudar o calendário da História. 




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