10.4.14

Fiesp sofre esculacho por financiamento à ditadura

Via Frente de Esculacho Popular -

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), sofreu, nesta quarta-feira (9), um esculacho popular que denunciou sua participação no financiamento ao Golpe Militar de 1964 e ao aparato de repressão a opositores do regime. O protesto, organizado pela Frente de Esculacho Popular (FEP), foi realizado em frente à sede da entidade na Avenida Paulista, centro financeiro de São Paulo. 

Outro alvo dos militantes por Verdade, Memória e Justiça foi o Banco Itaú, acusado de, além de ter apoiado a ditadura, distribuir uma agenda em que o dia 31 de março é chamado de “dia da Revolução de 1964”, como os defensores do regime se referem ao Golpe Militar. A FEP lembrou, ainda, a participação de outras empresas no financiamento à repressão política, como Ultragaz, Volkswagen, Odebrecht, Ford e General Motors, assim como meios de comunicação, como as Organizações Globo e o Grupo Folha. 

O esculacho popular teve início na noite da terça-feira (8) quando militantes da FEP saíram às ruas em torno da Avenida Paulista e colaram – em postes, orelhões, pontos de ônibus e até em um posto da Polícia Militar – cartazes em que a participação da Fiesp e do Itaú no apoio à ditadura é denunciada. 

Braço civil da ditadura

O objetivo dos ativistas é lembrar a participação decisiva do empresariado brasileiro na sustentação da ditadura militar, inclusive financeira. Inúmeros depoimentos e testemunhos confirmam essa ligação. Em São Paulo, por exemplo, já é célebre a existência de uma “caixinha da ditadura”, coletada pelo então ministro da Fazenda Delfim Netto com os empresários paulistas para o financiamento da Operação Bandeirantes (Oban).

No livro “A ditadura escancarada”, de Elio Gaspari, há a declaração do ex-governador biônico de São Paulo, Paulo Egydio Martins, de que, “àquela época, levando-se em conta o clima, pode-se afirmar que todos os grandes grupos comerciais e industriais do estado contribuíram para o início da Oban”.

No ano passado, um documento do Arquivo Público do Estado de São Paulo, revelado pela Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”, demonstrou a presença constante do empresário Geraldo Resende de Mattos, ligado à Fiesp, na sede do Dops paulista. 

O caso mais conhecido de colaboração empresarial é o do Grupo Ultra, cujo presidente, o dinamarquês naturalizado brasileiro Henning Boilesen, doava dinheiro, fornecia caminhões para as forças de repressão e assistia a sessões de tortura nos centros de detenção. Como represália, ele foi assassinado por grupos de esquerda. Sua história é contada no documentário “Cidadão Boilesen”, de Chaim Litewski. 

No caso da Volkswagen, há relatos de que, além das doações de dinheiro e do fornecimento frequente de veículos para o uso da repressão, a empresa repassava listas de funcionários considerados “subversivos” aos órgãos de segurança do regime. Vale lembrar que há fortes indícios de que outras fabricantes de veículos, como Ford e General Motors, também colaboraram com a ditadura militar. 

Itaú 

O Banco Itaú foi escolhido como alvo pela Frente de Esculacho Popular principalmente por causa do calendário distribuído aos seus clientes este ano. Na página do dia 31 de março, a instituição descreve a data como “aniversário da Revolução de 1964”, como o golpe militar é chamado por seus apoiadores. Além disso, a ligação do Itaú com o regime militar foi comprovada com o fato de um de seus controladores, Olavo Setúbal, ter sido prefeito biônico de São Paulo, de 1975 a 1979.

Já a Odebrecht, assim como inúmeras construtoras, como a Camargo Correa, teve seu capital aumentado em muitas vezes durante o período ditatorial. As relações próximas dessas empresas com os militares permitiu que elas tocassem diversas obras de infraestrutura pelo País ao longo de duas décadas. A Odebrecht, por exemplo, foi a responsável pela construção, entre outras coisas, da hidrelétrica de Itaipu, da sede da Petrobras, da usina nuclear de Angra dos Reis e do Aeroporto Internacional do Galeão. 

Além de grupos industriais, financeiros e de construção, há denúncias de colaboração de empresas de comunicação com a ditadura. A “Folha de S. Paulo”, por exemplo, é acusada de fornecer Kombis para a repressão aos opositores do regime. 

A Frente de Esculacho Popular, formada no início de 2012, é uma organização composta por familiares de vítimas da ditatura e ativistas de direitos humanos em geral. Tem como principal linha de ação a realização de esculachos, protestos que têm como objetivo denunciar os colaboradores da ditadura militar, seja pessoas ou empresas, como forma de pressionar por sua punição na Justiça. A FEP acredita que somente acabando com a impunidade do passado é que se pode acabar com os crimes do presente: ainda hoje, tortura-se e mata-se nas periferias das cidades do País.