17.7.14

UM PARTIDO PASCISTA

SEBASTIÃO NERY - 

Perto do Natal de 1980, toca o telefone:

- Onde vai passar as férias? Surgiu uma ótima oportunidade.

Era o Igor, adido de imprensa da Embaixada Soviética no Brasil e da agência de notícias “Tass”. Em 1977 eu passara um mês viajando pela Ucrânia, Moldavia, Georgia, Armênia, até o Mar Negro. Escrevi uma serie de textos sobre aquele mítico, misterioso Ocidente soviético.Igor insistiu:

- Agora você precisa conhecer nosso Oriente, a Sibéria, a partir dos Urais. Numa oportunidade lhe telefono. Você já está convidado.

O problema deles era arranjar um intérprete em línguas faladas pelo convidado e com tempo disponível. Estava em Moscou, de férias, um  da agência “Novosti”, que falava espanhol e francês. Eu podia viajar logo, janeiro e fevereiro. Mas desta vez sozinho, porque Sibéria é viagem longa.

AEROFLOT

Topei. Aeroflot não tinha voo saindo do Brasil. Pegava-se em Lima, no Peru. O DC-10 da Varig, superlotado,  me deixou às duas da madrugada em Lima, nas vésperas do Réveillon de 1980. E logo uma voz conhecida:

- Nery, o que é que você está fazendo aqui?

Era Heckman, diretor da Varig no Peru, que há dois meses eu  encontrara no aeroporto de Frankfurt, na Alemanha. Na Aeroflot, passagem reservada, tudo marcado e um funcionário soviético me pondo na primeira classe de um enorme Iliushin-62. O avião todo cheio lá atrás, e só eu, o único, na primeira, como um sheik árabe do petróleo.

Trazem-me um conhaque da Geórgia, daqueles que vi sendo fabricados lá. A comissária dá um aviso em russo. Palmas lã atrás e gente falando espanhol. Era meia dúzia de jornalistas do Peru, Colômbia, Bolívia, Equador, indo para um congresso de imprensa em Helsinque, na Finlândia. E o aviso era  de um hospital de Lima, comunicando que acabava de nascer o primeiro filho do jornalista peruano Luís Casas, ali a bordo, viajando.

Fui lá,  dei-lhe um abraço, pedi copos, convidei-os  para um vinho na  primeira classe. E farreamos cinco horas seguidas, graças à conhecida gentileza dos russos, sempre exemplares. Vinho, jantar para todos os jornalistas, conhaque. Ninguém perguntou quem eu era e porque transferira um pedaço da segunda classe para a primeira. Até descermos em Cuba. 

CUBA

Duas horas no chão, em Cuba, e de novo no céu com a Aeroflot. Mas antes de o avião levantar voo em Havana, novamente eu só na primeira classe, chega um senhor moreno, alto e apressado, conferindo a passagem e falando espanhol. Era um cubano da Aeroflot em Cuba, vendo meu bilhete:

- Há um erro. Sua passagem é na segunda classe e está na primeira.

- O chefe da Aeroflot em Lima é quem me pôs para viajar aqui.

- Mas não pode.

- Sinto muito, mas não é problema meu.

- É, sim. O senhor não vai poder continuar viajando aqui.

- Desculpe, mas não vou sair. Só com ordem do comandante do avião ou do chefe da Aeroflot de Lima, que me convidou.

O homem enorme levou um susto com minha resposta. Parou, olhou para mim com ódio e foi lá dentro da cabine. Voltou, desceu as escadas pisando forte e eu continuei no meu canto. Mais 9 horas até Dublin, na Irlanda, e os sul-americanos farreando socialistamente no céu dos russos, eu na primeira, eles na segunda, e os vinhos  e conhaques entre as duas.

MOSCOU

Na Irlanda, mais duas horas no chão, o frio roendo os ossos. De Dublin, para Helsinque, na Finlândia, onde desceram os jornalistas. E eu em direção ao Polo Norte, até Murmansk, península de Kola. De Murmansk, Moscou. Eu já não sabia por onde andava meu confuso-horário. Um sol forte, sobre as nuvens, iluminava o horizonte visivelmente curvo, lá em cima, e, de repente, a visão clara, real, inacreditável, da noite caminhando apressada sobre nuvens. O avião indo para um lado e à noite para o outro.

E daí a pouco o meio-dia anoiteceu com lua e nuvens rosas, como nas histórias bonitas da infância. Engolido em fusos horários a cada instante renovados, o tempo enlouqueceu. Já era Moscou e já era meia-noite de novo. O aeroporto Cheremetievo, novo em folha, preparado para as Olimpíadas, dormindo sob a neve e, lá fora, 10 graus abaixo.  E o hotel Rússia, na Praça Vermelha, em um jardim de papoulas, onde tantas tardes andei com a rosa púrpura do Cáucaso, a  luminosa caucaseana Ludmila. 

YOANI

Em 60 anos de viagens aprendi que o mundo gosta dos jornalistas. O PT precisa ler no clássico “Le Mie Prigioni”, do jornalista italiano Silvio Pellico, como Mussolini levou o Partido Socialista para o fascismo. E é uma pena. O PT, que nasceu embalado em tantas esperanças, é cada dia mais um partido fascista. E isso precisa ser implacavelmente denunciado. O que o PT está fazendo com a brava jornalista cubana  Yoani Sanchez é asqueroso. Mulher valente que há dez anos desafia uma ditadura. 

-Artigo de 26/02/2013.