6.12.15

A MULTINACIONAL OCULTA

Por LÚCIO FLÁVIO PINTO - Via blog do autor -


João Lara Mesquita conhece profundamente o litoral brasileiro. Tanto por estudá-lo como por percorrê-lo sistematicamente de barco. Ele ficou chocado pelo desastre de Mariana, que amanhã completa um mês e ainda é um tema em aberto. Tão pouco conhecido que oito pessoas permanecem desaparecidas, além das 11 que morreram.

Inegavelmente, foi o pior acidente ambiental causado pela mineração no Brasil e um dos mais graves do mundo. Mas ainda falta estudá-lo melhor, quantificá-lo e projetar seus efeitos sobre a natureza e o homem. Ninguém duvida que os danos se farão sentir pelos próximos anos.

As autoridades públicas envolvidas já definiram em 20 bilhões de reais o valor exploratório da indenização que os causadores da tragédia terão que pagar. O contencioso que se estabelecerá fixará o valor legal devido.

Mas há questões elementares ainda sujeitas à controvérsia. A lama que vazou com o rompimento da barragem de contenção de rejeitos de minério de ferro da Samarco é ou não é tóxica. Uma parte dos que se manifestaram até agora afirma que não é. Outra sustenta que é.

João Lara Mesquita está no segundo grupo. Ele se baseia na análise da água do rio Doce feita pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto, de Baixo Guandu, no Espírito Santo (por aonde a lama chegou ao mar). O resultado apontou a presença de metais pesados: chumbo, alumínio, ferro, bário, cobre, boro e mercúrio.

“O rio está morto, o cenário é o pior possível”, disse Luciano Magalhães, diretor do Saae. “Morte anunciada em razão de uma legislação frouxa e inexistência de fiscalização”. Por isso, ele pede a responsabilização do poder público, cujos erros contribuíram para o acidente.

Mas ele foi a um ponto até aqui ignorado ou subestimado pela imprensa brasileira: a participação da multinacional anglo-australiana BHP Billiton, que divide com a Vale, em partes iguais, o controle acionário da Samarco.

Reproduzo o trecho final do artigo que João publicou, revelando o que apurou sobre a BHP, na Folha de S. Paulo, sem deixar de estranhar um fato: ele é da família Mesquita, dona do principal concorrente da Folha, que é O Estado de S. Paulo. Por que seu artigo não saiu no Estadão?

Com a palavra, João Lara Mesquita.

A BHP Billiton, ao contrário de Midas, tem dedo podre. Acidentes graves são frequentes onde atua. Um dos piores aconteceu em Papua-Nova Guiné, ao abrir uma mina de ouro e cobre, a OK Tedi Copper Gold Mine, em 1984.

Durante 20 anos despejou, dia após dia, 80 mil toneladas de rejeitos contendo cobre, cádmio, zinco e chumbo, diretamente na bacia do rio Fly, o que arruinou terras de milhares de agricultores, envenenando 2.000 quilômetros quadrados de floresta. E detonou dois rios, o Fly e o Ok Tedi.

Para fugir das responsabilidades, assinou acordos com líderes comunitários, que isentaram a empresa do pagamento de indenizações.

ONGs informaram que “ao conversarem com os nativos, ficou claro que eles não sabiam o que estavam assinando”. O histórico da BHP gerou um relatório alternativo, “BHP Billiton Dirty Energy”, informando sobre a destruição de comunidades na Colômbia, acidentes na Indonésia e Austrália.

Já o “Mining Journal” cita outros, como o da mina de cobre em Pinto Valley, Arizona (EUA).

Só o Brasil oficial não sabia?