6.12.15

A PRAÇA DA TRAIÇÃO

CARLOS CHAGAS -

Ao demitir-se do ministério da Aviação Civil, Eliseu Padilha definiu-se pelo impeachment da presidente Dilma? Ou foi antes? Tanto faz se Madame já sabia do posicionamento do agora ex-ministro, e por isso sustou a nomeação já aprovada de um protegido dele, porque ninguém acredita que a demissão deveu-se ao cancelamento da nomeação. O polêmico conselheiro de Michel Temer já havia desembarcado do governo pelo menos desde que, junto com o vice, perdeu a função de coordenador político da presidente. Não adiantou nada ter sido confirmado no ministério, ingenuidade de Dilma e malandragem dele. Já estava do outro lado e agora trabalha abertamente pelo afastamento da chefe do governo. Espera convencer, senão todos, ao menos alguns ministros do PMDB a pedir as contas.

O entrevero dá a medida de como nada é garantido nessa tentativa de degola da presidente, liderada por Eduardo Cunha, certamente assessorado por Eliseu Padilha. A Praça dos Três Poderes só não pode ser rotulada de “praça da traição” porque o Poder Judiciário mantém-se à margem da baixaria que atinge Legislativo e Executivo. São raros os que não mentem e não afiam punhais para espetar hoje os aliados de ontem. Porque o chefe da Casa Civil e o ministro da Comunicação Social inventaram comentários que o vice-presidente não fez, contra o impedimento de Dilma, obrigando-o a um desmentido formal, ao tempo em que parte da bancada do PMDB procura saber o dia em que Michel Temer assumirá o palácio do Planalto.

O substituto, sequioso de transformar-se em sucessor, reúne-se com partidários do impeachment e nega-se a condenar o processo em andamento, tanto quanto a entoar loas à presidente da República. Impossível desconsiderar que no fundo do cérebro não tenha montado o seu ministério, ainda que de público preserve o silêncio.

BRASIL PARADO

Enquanto isso, o Brasil continua parado, a economia posta em frangalhos, o governo inativo e deputados e senadores dispostos a não estragar suas férias. O cancelamento do recesso parlamentar parece afastado, porque ninguém é de ferro. Quando retornarem, em fevereiro, Suas Excelências trarão de suas bases mais toneladas de pessimismo, ainda que sem a certeza de terem perdido os 172 votos, na Câmara, suficientes para frustrar o impedimento de Madame. Mesmo assim, o tempo trabalhará contra ela, pois o desemprego só faz multiplicar-se e o custo de vida aumentar, junto com os impostos, taxas e tarifas.

Começarão amanhã encontros de Dilma com os governadores, todos temerosos de que a moda pegue e seus adversários, nas Assembléias Legislativas, iniciem processos de impeachment contra eles. Mas andam, também, envoltos em desgaste, dada a falta de recursos para enfrentar as dificuldades. Não há um só chefe de executivo estadual que tenha melhorado sua performance em termos de popularidade. Muito pelo contrário, levando alguns a torcer pela ascensão de Temer ao poder. Em suma, nem Papai Noel desatará o nó que sufoca o país sem futuro.