21.12.15

MACONHEIROS TORTURADOS

ANDRÉ BARROS -


No réveillon de 2008, Deize Carvalho se despediu pela última vez de seu filho mais velho. Andreu foi assassinado, na primeira madrugada do ano, com 17 anos de idade, numa repartição pública do Rio de Janeiro. O adolescente foi preso, pois teria assaltado à mão armada um turista americano que não o reconheceu. Estava trabalhando e vivia o melhor momento de sua vida. Foi levado ao Centro de Triagem e Recepção, CTR, na Ilha do Governador, do Departamento Geral de Ações Sócio Educativa – DEGASE, local mais conhecido como Instituto Padre Severino.

Ao chegar, recebeu um soco na cara e reagiu com outro em seguida. Foi massacrado durante uma hora e meia com 30 perfurações com cabos de vassoura, teve vários ossos, como o maxilar, fraturados, além do crânio, por pancadas de um saco cheio de cocos, cadeiradas e jogado dentro de uma lixeira. Quando já estava morrendo e pedindo para não ser assassinado, foi obrigado e dizer várias vezes que era um lixo.

Andreu já estava marcado pra morrer. Havia sido internado três vezes, sendo que na última um jornal sensacionalista estampou na manchete que o adolescente teria dito que ser internado era como ficar um tempo num parque de diversão e sairia logo. Não sei a razão da manchete ter estampado a frase como deboche, pois chamar aquele local, que mais se parece com um campo de concentração, de parque, ainda por cima, de diversão, deveria ser encarado como elogio. Quando foi assassinado, Andreu estava empregado como garçon, depois que uma ONG resolveu ajudá-lo quando saiu de sua terceira internação.

Em sua autobiografia, Deize narra sua entrada na luta contra esse Estado de genocídio em que vivemos. Onde as vítimas dessa suposta guerra são exatamente aquelas pessoas que tiveram seus antepassados escravizados. A Lei 2889-1956 assim define em seu primeiro artigo o crime de genocídio:

“Art. 1º Quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal:
a) matar membros do grupo;
b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo;
c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial;”

Com a leitura do artigo citado, podemos perceber que o genocídio é uma histórica política de Estado no Brasil. Deize é de uma família fundadora do Morro do Cantagalo, em Copacabana, lugar cantado pelo seu mais ilustre morador, Bezerra da Silva. Seus avós fugiram do lugar onde seus bisavós foram escravizados, Minas Gerais, e chegaram ao Rio de Janeiro só com a roupa do corpo. Como bom mineiros, ainda em 1907, procuraram a praia, e subiram o morro do final de Copacabana. Seu avô trabalhou na construção de grandes prédios no bairro e ainda ajudou na obra da nova capital federal. Sua avó catou muito lixo nos latões de supermercado, feiras e restaurantes da princesinha do mar. Em histórico estado de miséria, a própria autora da maravilhosa autobiografia “VENCENDO AS ADVERSIDADES”, hoje estudante de direito, já buscou comida no lixo como sua avó.

Nasceu em 1971, de sete meses, porque sua mãe estava numa festa na quadra do Cantagalo, quando começou a passar mal devido a um tiroteio entre policiais e algumas pessoas que estavam implantando a boca de fumo no morro.

Descreveu em seu livro vários casos aterrorizantes de companheiras, que conheceu em sua militância política contra esse Estado genocida brasileiro. De todos, um me chamou mais a atenção. Em novembro de 2008, um jovem de 17 anos e um amigo pularam o muro de um quartel do exército desativado em Realengo para fumar maconha. Foram flagrados pelos sentinelas e gravemente agredidos. O adolescente recebeu choques, teve um pedaço da orelha cortado, perdeu 20 % da visão e ficou com marcas nas costas.

Deize escreveu essa magnífica obra para não morrer. Cada exemplar comprado reduz o perigo de vida da futura advogada e pode ser adquirido com ela mesmo por seu facebook Deizeca Carvalho. Leve seu exemplar!

Assista, conheça mais e apoie a luta desta mãe agora! Assine a petição: bit.ly/JusticaParaAndreu