8.12.15

MOBILIZAR O BRASIL PELO FUTURO

HÉLIO DUQUE -

Neste último artigo de 2015, em momento adverso, reafirmo confiança, a longo prazo, no futuro do Brasil. Este é um momento infeliz da nossa história, com triste decadência da vida pública brasileira. Precisamos lutar para restabelecer a viabilidade de um país decente. Em momento de recessão econômica, debacle política e crise moral atingindo executivo e legislativo. A questão social é agravada pelo desemprego e perda de renda. O desastre se originou no abandono da estabilidade econômica. Os governos Lula e Dilma destruíram a política econômica estruturada pelo Plano Real, implantando a chamada nova matriz econômica, baseada no crédito farto, achatamento dos juros, garantindo consumo irrealista, elevando os gastos públicos e assegurando privilégios a grupos econômicos através a isenção tributária. Ao invés dos investimentos produtivos dos recursos públicos e privados, que garantiria crescimento da economia brasileira, escolheram o populismo garantidor de popularidade.

Recolocar o Brasil no rumo do desenvolvimento é missão de estadista comprometido com o futuro. Precisamos de uma classe política que enxergue o futuro com competência. Igualmente de empresários comprometidos com as regras de um capitalismo competitivo gerador de riquezas. Necessitamos de um Estado enxuto, onde os gastos públicos não extrapolem as receitas. Não é objetivo impossível de ser realizado. Desde que a sociedade se mobilize e diga ao governo e aos políticos que eles têm um padrão: o povo. Não é momento de “sonháticos”, mas de governantes competentes. Somos um país jovem e em construção, onde somente em obras de infraestrutura, no curto e médio prazo, tudo está por ser feito. Investimentos em parcerias público-privada em rodovias, ferrovias, aeroportos, hidrovias, portos, dragagem de portos e setores afins, seria uma opção promissora e fadada a gerar desenvolvimento e emprego nesse momento adverso.

Há alguns anos, em Lisboa, ouvia de um patrício que “o pessimista é um otimista bem informado”. Lendo entrevista do economista Paulo Guedes, fundador da Escola de Negócios Ibmec e presidente do conselho de administração da Bozano Investimentos, relembrei aquele pensamento, em relação ao nosso país: “Quando os militares assumiram o poder, o Brasil era o país que mais havia crescido no mundo em 75 anos – 7,4% em média, ao ano. Em seguida vinha o Japão, com crescimento de 7,3% ao ano. Naquela época, 18% do PIB estavam nas mãos do Estado. Quando os militares saíram, eram 25%. Com Sarney, essa fatia subiu mais alguns pontos, para uns 27% ou 28%. Com Fernando Henrique, foi para 32%. Hoje o Estado abocanha quase 40% do PIB, se incluirmos na conta os juros da rolagem da dívida pública que deve chegar a quase R$ 500 bilhões” (Época, 16-11-2015).

O abandono das reformas estruturais e o gigantismo do Estado foram os responsáveis pela descontinuidade de um padrão de crescimento que prevaleceu por sete décadas. Neste final de 2015, o Brasil está atolado em uma crise devastadora nunca antes vivida na história. O populismo irresponsável e incompetente, aliado ao patrimonialismo das elites econômicas e políticas, produziu a realidade que estamos a viver. A tutela e captura do Estado por grupos de pressão poderosos, desde organizações empresariais, sindicais e os chamados movimentos sociais, são grandes responsáveis. Nesse cenário, a corrupção fincou raízes poderosas, colocando a estrutura estatal subserviente aos seus interesses. A “Operação Lava Jato” ou a “Operação Zelotes”, até agora, tem indignado a população e novos fatos de corrupção e assalto ao dinheiro público ainda vão aparecer.

Desgovernado, o Brasil não tem uma agenda prioritária, nem política, muito menos econômica para sair da crise. E o pior é que o PIB deverá cair em 3% no ano corrente e poderá em 2016 repetir a dose, com queda acima dos 2%, com reflexos negativos em 2017 e 2018. Enfrentar com coragem e visão de estadista essa perversa realidade é o único caminho a ser seguido. Lamentavelmente o deserto de figuras públicas, comprometidas com o futuro que “desate o nó” em que se meteu o país, é triste realidade.

Não obstante todo esse momento desesperador, precisamos ter esperança no futuro do Brasil. Começando pelos brasileiros terem consciência na escolha dos governantes. Hoje os partidos políticos são meras siglas eleitorais, desconectados da vida dos cidadãos, Refletindo no executivo e no legislativo, divorciados da sociedade e ignorando o encerramento de um ciclo na vida nacional. Ante tudo isso resta indagar: o que fazer para retirar o Brasil da crise? Sem o despertar das forças vivas da nacionalidade é quase impossível. A ampla mobilização da sociedade, formando verdadeira frente de redenção nacional, é o caminho que precisa ser trilhado.

Chegaremos a 2020 com uma década perdida, mas na seguinte o Brasil tem todas as condições para reverter a “herança maldita”, que o populismo implantou. Os economistas Fabio Giambiagi e Alexandre Schwartsman, em livro, apontam um dos caminhos, mostrando o que adjetivaram de “pentágono virtuoso”: “1-competição; 2-poupança; 3-infraestrutura; 4-gasto público eficiente; e 5-investimento em educação”. Agregado a um pacote de reformas estruturais começaria a reversão da crise e construção de um futuro abandonado por governantes destituídos de visão de Estado. No horizonte, o grande perigo será os brasileiros desesperados, na eleição de 2018, escolherem um novo “salvador da pátria”.

*Helio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Foi Deputado Federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.