29.12.15

O INCRÍVEL MUNDO POLÍTICO DO RIO DE JANEIRO

Por LUIS NASSIF - Via Jornal GGN -

O Rio de Janeiro é um enigma. Capital federal por muito tempo, cidade mais internacionalizada do país desde sempre, a política interna do Rio sempre foi de uma pobreza extrema.


As grandes vocações públicas rumaram para a área federal. Durante muito tempo o Rio se considerava uma espécie de farol do país rumo à modernização. Abrigou a mais brilhante geração de homens públicos brasileiros que, a partir dos anos 50, ajudou a desenhar o país. O fato de se tornar sede da Petrobras e do BNDES, da Universidade do Brasil (futura Universidade Federal do Rio de Janeiro), a convivência com empresários e investidores internacionais que por aqui aportaram durante a guerra, tudo isso contribuiu para a glória do Rio.

Mas no plano interno repetia o cenário da Proclamação da República, quando já possuía uma câmara de vereadores dominada pelo jogo do bicho.

Alguns dias no Rio são suficientes para perceber os três temas preferenciais dos cariocas: futebol, escolas de samba e política.  Qualquer carioca tem opiniões definitivas sobre os três temas.

Qual a razão, então, do baixíssimo nível da política carioca?

Durante muito tempo a política carioca foi dominada por Chagas Freitas, em cima do jornal O Dia. Aliás Chagas Freitas era um “laranja” do governador paulista Ademar de Barros quando, com seus bônus rotativo, montou a maior máquina de corrupção da história política do país. Espalhou seus bens por dezenas de laranjas. Quando Ademar caiu em desgraça, Chagas não devolveu O Dia. Jornal sangrento, versão carioca do Notícias Populares, mesmo assim ajudou a criar uma geração de políticos, como Miro Teixeira.

Ao longo das décadas, o Rio logrou eleger apenas dois políticos de expressão nacional, Carlos Lacerda e Leonel Brizola. O restante ou se dividia entre a mediocridade mais obtusa ao exibicionismo mais desmoralizante.

No centro dessa crise estão os grupos de influência na política carioca, a começar da imprensa.

No seu auge, o Jornal do Brasil importava-se apenas com temas nacionais. Ao contrário do que se imaginava, Roberto Marinho, da Globo, não tinha cabeça internacionalizada. Fez ótimas escolhas, quando se associou ao grupo Time-Life e quando profissionalizou a TV. E sempre se cercou da maior escola de lobistas que o país já conheceu, aquela que se formou no Rio a partir dos anos 50 e manteve sua influência na máquina pública pelo menos até a década de 90.

A escola de lobby carioca se formava em torno de novas formas de negócio e do aparelhamento continuado da máquina pública, da Petrobras ao Itamarati. Os lobistas dispunham de visão ampla e conviviam com alguns dos fundadores do Brasil moderno, como Roberto Campos, Raphael de Almeida Magalhães, Eliezer Batista, Dias Leite.

Marinho conviveu com esse grupo, aprendeu a se valer de sua influência, mas seu horizonte cultural e político era restrito. Importava-se com o jornal, com a pesca submarina e com os investimentos imobiliários. Por aí se definia a blindagem ou a guerra implacável ao prefeito ou governador de plantão. Quem atendia a seus interesses imobiliários era poupado.

O segundo grupo de influência eram os bicheiros patronos de escolas de samba. O terceiro, os cartolas de clubes de futebol reunidos em torno da CBF, em estreita parceria com a Globo. O quarto, que surgiu mais recentemente, o dos pastores evangélicos.

A esse ambiente diversificado e rarefeito soma-se certa permissividade de uma cidade de praia lindíssima, mas que jamais perdeu o clima da corte, da celebração do prazer seja dos playboys desocupados que se reúnem no Leblon, seja de governadores e empreiteiros se expondo em restaurantes de Paris.

Esse clima foi favorecido pela própria formação dos grupos empresariais cariocas, a maior parte dos quais se fez com importação e representação de grupos estrangeiros, ou com estratégias no mercado financeiro e de lobby.

É lá que Aécio Neves convive com Ricardo Teixeira, que o filho do usineiro vai aproveitar o ócio, que Paulo Roberto Costa torna-se corretor imobiliários dos Marinho. E lá que o PT foi amarrar o seu burro.

O atual sistema político do Rio é uma coisa só, com Sérgio Cabral, Pezão, Eduardo Paes, Francisco Dornelles e Eduardo Cunha. E a oposição, com o filho de César Maia e Garotinho, é de chorar.

Ao longo de diversos governos federais e estaduais, a banda carioca do PMDB logrou criar uma metodologia imbatível de apropriação da coisa pública. E, em quase todos os momentos, estava a presença ostensiva de Eduardo Cunha.

Quando Ministro da Previdência, por exemplo, Dornelles levou como assessor Eduardo Cunha. Em alguns dos inquéritos contra Cunha, ele próprio logrou cooptar o Procurador Geral do Estado e agentes da Polícia Federal.

A crise do sistema de saúde do Rio de Janeiro não é mais do que consequência desse modelo, a pior síntese de um sistema político que apodreceu.

Quando se vê e estabilidade da República entre o oportunismo de Michel Temer, a falta de limites de Eduardo Cunha e a frente política do PMDB carioca, constata-se que definitivamente o modelo acabou.