4.12.15

OS QUE FICAM

MIRANDA SÁ -

“Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão/Se gritar pega ladrão, não fica um…” (Bezerra da Silva)

Durante muitos anos fui um aficionado leitor de livros policiais que lia com voracidade, consumindo contos e romances de um sem número de autores. A literatura criminal, como nos filmes de faroeste com seus mocinhos e bandidos, condena o crime enaltecendo o investigador e condenando o criminoso.

Essa função ideológica das estórias policiais sempre me pareceu com as velhas fábulas educativas que deviam constar dos sistemas de educação infantil. Um ministro da Educação devia torná-las obrigatórias, fertilizando a imaginação das crianças com Esopo, Fedro, La Fontaine, Calderón de La Barca e o nosso Monteiro Lobato.

A herança literária do Ocidente, como quase tudo no nosso processo civilizatório, nos chegou através da Grécia e de Roma, importada do Oriente… Dizem que o conto tem origem na literatura oral transmitindo as lendas e os mitos folclóricos orientais e, enriquecidos pela imaginação popular da Europa e das Américas, chegaram à literatura escrita.

Então, de Boccaccio com seu Decamerão até hoje a humanidade fez uma viagem maravilhosa atraindo leitores para as narrações curtas como o pólen atrai as abelhas.

No conto policial, sobressaíram-se entre os grandes autores a escritora, romancista, contista, dramaturga e poetisa Agatha Christie e Conan Doyle médico e escritor escocês, ambos com milhões de livros vendidos no mundo inteiro.

Os fatos rocambolescos que dominam o cenário político brasileiro trouxeram-me à memória um episódio que se passou com Conan Doyle – não sei se verdadeiro ou não  –, que ele por brincadeira escolheu 10 amigos para uma ‘pegadinha’:

Mandou-lhes um telegrama: “Foge imediatamente; descobriu-se tudo”. Eram pessoas conhecidamente honradas e coerentes, tanto na vida profissional como na pessoal, mas em menos de 24 horas todos haviam viajado para fora do país com pretextos vários…

Imagine-se o que ocorreria se destinássemos e-mails (hoje o telegrama está superado) aos políticos brasileiros! Para não perder tempo folheando o caderno de endereços do Congresso Nacional, das assembléias legislativas e câmaras municipais, poderíamos usar apenas a lista que o doutor Janot enviou ao STF com 28 nomes, ou o rol dos denunciados pelos doleiros e lobistas que fazem delação premiada na Lava Jato… Seria um corre-corre nunca visto!

A rota de fuga traçada por Delcídio Amaral para Nestor Cerveró ficaria congestionada, com mais de 50 políticos do PP, PMDB, PSDB, PT, PTB e Solidariedade; seriam 25 deputados, seis senadores e três governadores.

As duas figuras que se digladiam no momento, acusando-se mutuamente de barganhas, chantagens e mentiras, o presidente da Câmara Eduardo Cunha e a presidente da República Dilma Rousseff, não fugiriam: ele, pela frieza calculista; ela, por indigência neuronial.

Se fosse um embate entre Cunha e Lula empatava, sem dúvida; os dois se igualam na amoralidade. Cunha, porém, está sendo chamado nas redes sociais de “meu malvado favorito”, por que aceitou o pedido de impeachment contra Dilma, atendendo a um clamor nacional.

Esta trinca de malfeitores são personagens de um romance policial contemporâneo e vão demonstrar que não pode haver crime perfeito, sem lugar para impunidade. A ordem social exige para Cunha e Lula, cadeia; para Dilma, impeachment.