7.12.15

TONELADAS DE ERVA POR DIA NO RIO DE JANEIRO

ANDRÉ BARROS -

Pelas contas de nosso competentíssimo colaborador, advogado e ativista, André Barros, somente o Rio de Janeiro poderia lucrar mais de R$ 60 milhões por mês com a maconha (legal ou ilegal). Mas afinal, para onde vai este dinheiro?


No capitalismo, a concorrência se dá pelos mercados. Cada produto é disputado por empresas concorrentes. O Estado tem algum controle dos produtos legais, pois existe um sistema de defesa da concorrência para impedir práticas infrativas aos mercados. Para isso, é preciso saber quantas empresas concorrem por produtos em determinados territórios. Primeiro, é preciso saber qual é o produto e a fatia do mercado que cada empresa detém num local. Se for superior a 20%, essa empresa tem poder de mercado e deve ser fiscalizada, pois pode usar de práticas infrativas para destruir concorrentes. Uma empresa com grande fatia de um mercado pode jogar os valores abaixo do preço de custo para destruir um concorrente. Isto, por exemplo é uma prática infrativa ao mercado.

Este conhecimento da concorrência acontece quando o produto é legal. Na criminalização do consumo de determinados produtos, tal visualização é praticamente impossível, pois trata-se de assunto de mercado e o sistema penal não tem capacidade de fazer tal estudo. Por isso, em grandes mercados, a polícia não tem a menor noção do que vem acontecendo.

Em relação à maconha, começamos a ter alguns dados em razão da legalização em determinados países. O Smoke Buddies publicou em outubro um artigo de Lucas Tavares que trouxe alguns dados importantes acerca do Uruguai. Com a legalização, o governo, que terá o monopólio da venda da maconha, fez alguns levantamentos. Aproximadamente 160 mil pessoas consomem habitualmente maconha no Uruguai, um país com 3 milhões de habitantes. Para suprir o mercado da maconha, o país terá de produzir de 6 a 8 toneladas por mês da erva para consumo. Sem falar no autocultivo autorizado de 6 plantas por pessoa, além das cooperativas com no máximo 99 pés.

Com esses dados, podemos fazer algumas comparações com a cidade do Rio de Janeiro. A população da cidade é o dobro da de todo o Uruguai: aqui vivem em torno de 6 milhões de pessoas. Se o Uruguai terá de produzir entre 6 e 8 toneladas por mês num país com 3 milhões de habitantes, então podemos colocar que no Rio de Janeiro, por mês, no mínimo, são consumidas 12 toneladas de maconha. E se cada grama custa em torno de 5 reais, preço atribuído pelo governo do país vizinho, então o mercado mensal do Rio de Janeiro gera um lucro mensal de 60 milhões de reais.

Boa parte desse mercado movimenta-se nas favelas cariocas, nas históricas bocas de fumo. Nessas comunidades, praticamente não existem bancos e carros-fortes não carregam tantos milhões. Essa riqueza não fica nas comunidades, locais onde sequer possuem saneamento básico. Crianças brincando em valas sujas entre porcos e ratos é uma cena corriqueira, onde vivem pessoas de maioria negra. As bocas de fumo foram uma forma de resistência dos negros que conseguiram manter o histórico consumo do fumo de angola. A classe média branca só vai começar a fumar maconha nos anos 60. A resistência da maconha foi dos pobres e negros nas bocas de fumo. E agora, que avançamos no processo de legalização da maconha no mundo, será uma grande injustiça no Brasil se essa mercadoria não puder ser vendida nos morros do Rio de Janeiro, gerando milhões de reais nessas comunidades. Pode ser até mais uma forma de atração turística. O visual dos morros cariocas é maravilhoso e fumar um baseado nesses picos pode ser um grande programa. A legalização da maconha, sem a legalização das bocas de fumo nas favelas, será uma enorme injustiça. Essa bandeira também deve ser levantada na Marcha da Maconha: Pela Legalização da boca de fumo!