16.12.15

VOAR É PRECISO

CARLOS CHAGAS -


Fica difícil imaginar um cérebro diabólico por trás de tudo o que vem acontecendo. Só nas histórias de quadrinhos o Capitão Marvel precisava enfrentar o Dr. Silvana, maior inimigo da Humanidade. Mesmo assim, é preciso atentar para a evidência de que não sobra ninguém dessa operação de desmonte das instituições, dos partidos políticos, das lideranças postas em frangalhos, do governo federal, dos governos estaduais e do sentimento popular. Todos merecem a desmoralização, mas a pergunta que se faz é se o Judiciário e o Ministério Público disporiam de tanto poder assim para destruir tudo, mesmo contando com farto embasamento legal e ético para agir como vem agindo.
Porque acima e além da rígida aplicação dos postulados que regem as sociedades organizadas, paira o instinto da sobrevivência. Não para beneficiar bandidos e vigaristas, nem estruturas viciadas, mas para permitir que de toda a necessária limpeza venha a resultar a argamassa imprescindível para se erigir um edifício honesto, justo e necessário à construção do futuro.
Das instituições, está tudo indo à garra. O Legislativo virou um mar de lama, com raras exceções. Deputados e senadores pouco se interessam em enfrentar o desemprego em massa, a multiplicação de impostos, o aumento do custo de vida, a deficiência das políticas públicas, dos serviços essenciais e quantas necessidades a mais? Hoje, os responsáveis pela décâcie preocupam-se mais em reafirmar suas lideranças, enriquecer, realizar negócios honestos e escusos, além de aumentar seu patrimônio. A coisa pública em último lugar. Judiciário e Ministério Público explodiam sem explodir-se ao mesmo tempo?
Quanto aos partidos políticos, exprimem a moeda de uma só face. O PT naufragou primeiro, passando de legenda empenhada em mudar o Brasil e estabelecer a justiça social a aglomeração onde cada um cuida primeiro de si. O PMDB vinha se equilibrando, mas depois da ascensão de Eduardo Cunha a chefe de quadrilha, aumentou vertiginosamente o número de adeptos voltados para as mesmas finalidades. O PSDB lamenta estar fora jogo e partidos menores buscam garantir espaços para imitar os maiores. O PTB e PDT deixaram se ser trabalhistas, assim como o PSB, se foi socialista, já esqueceu, assim como de popular o PP não tem nada, da mesma forma como o PC do B nem é comunista nem do Brasil. Em suma, não será com os atuais partidos, ou com seus dirigentes, que chegaremos a lugar algum.
As lideranças da sociedade civil omitem-se tanto que até se apagam. Das trabalhistas às empresariais, das intelectuais às religiosas e militares, cuidam de seus interesses. Enterram a cabeça na areia, como o avestruz em meio a tempestade, abandonando a importância do conjunto em favor do egoísmo individual. Qual da FIESP na luta contra o desemprego? A Federação das Igrejas Evangélicas organiza-se para realizar a reforma agrária? A CNBB, para estimular a implantação de ferrovias ou a melhoria dos portos?
O governo federal entrou em falência, e não foi da noite para o dia, como fazem crer os eventuais detentores do poder. A crise decorre dos que não conseguiram enfrentar seus desafios, no passado, e para eles melhor será complicar a vida dos que virão, no futuro. A situação nos Estados nada difere do plano federal: os governadores, sem exceção, sequer dispõem de barriga para empurrar seus problemas.
Quanto ao sentimento popular, esvaiu-se, se havia algum. O cidadão comum deixou de sentir, seja indignação, seja esperança. Vai com a corrente, pouco se importando se enfrentará cachoeiras, abismos ou areias movediças. Até quando sentir estar despencando para as profundezas. Nessa oportunidade, ara flutuar, ou seja, para sobreviver, verificará que a única saída será voar. O diabo é que carecemos de asas...