22.1.16

A ALMA DO OUTRO MUNDO

CARLOS CHAGAS -

Décadas atrás, para assustar as criancinhas,  os mais velhos ameaçavam com a aparição das “almas do outro mundo”. Tratava-se de forma mais amena do que lembrar da existência de lobisomens, vampiros, mulas-sem-cabeça, cucas, zumbis e penduricalhos.
Pois  acaba de aparecer outro tipo de alma, até prova em contrário, deste mundo mesmo.  É  a “viva alma que neste país não  tem mais honesta do que a dele”. Assim definiu-se o Lula em encontro com blogueiros, quarta-feira. Pretensão igual só no almanaque dos santos. Situou-se no mesmo patamar da Polícia Federal, do Ministério Público, dos Sindicatos e das Igrejas Católica e Evangélica.  Sua alma, motivo de  orgulho, equivale ao grande prêmio nas delações premiadas. Ganha o delator  que conseguir citá-lo mais vezes.
O Lula saiu em defesa dos companheiros  processados, condenados  e presos, ainda que referidos  tenham sido apenas  João  Vaccari Neto e José  Dirceu.  Há ansiedade na longa  fila formada atrás deles, também ávidos de uma solidariedade até agora invisível.
Direito de defender-se, e aos condenados, o ex-presidente possui. Como também de processar jornalistas, mesmo tornando-se agressão  atacar nossa dignidade profissional. Até  de  comparar a roubalheira verificada no PT com a de outros partidos. O que não dá para aceitar é a ausência de alma mais honesta do que a dele. Afinal, sua performance na presidência da República,  e depois, vem sendo objeto de referências nas delações premiadas. Apartamentos milionários,  sítios, viagens,   negócios e palestras subsidiadas por empreiteiras e governos estrangeiros, filhos endinheirados sem explicação da origem, amigos privilegiados, auxiliares na  cadeia –  tudo  merece ser examinado à luz da  honestidade da alma, se não for do outro mundo.
Vai ficando claro que o Lula se defende mais  do que devia ou podia. Suas observações beiram a incerteza, ao acentuar  que “perdemos  a nossa gente”, junto com reprimendas à sucessora. Trocar Joaquim Levy por Nelson Barbosa, para ele, dá a impressão de substituir seis por meia dúzia. E sua candidatura em 2018 parece a única saída para o PT.
O TRABALHO E A PROPAGANDA
Nos anos setenta a propaganda do regime militar contagiava os Estados através do “milagre brasileiro”. Os governadores, mesmo impotentes e subservientes, buscavam imitar o modelo nacional. No Paraná desenvolveu-se intensa campanha que começava na fronteira com Santa Catarina. O motorista que chegava deparava-se com imensa placa de promoção onde se lia: VOCÊ ESTÁ ENTRANDO  NO PARANÁ.  AQUI SE TRABALHA!
Os catarinas não gostaram e dias depois apareceu outra placa, maior e em sentido contrario: VOCÊ  ESTÁ  ENTRANDO EM SANTA CATARINA. AQUI SEMPRE SE TRABALHOU...