29.1.16

A MACONHA QUE É DA BOA

ANDRÉ BARROS -

Cerveja da boa? Enquanto o álcool é não só liberado, como estimulado, a maconha continua no limbo da hipocrisia e da criminalidade. Quer entender melhor como a proibição da erva é um problema muito mais complexo do que você imagina? Então leio o artigo desta semana.


Mesmo sendo liberada, legalizada, propagandeada, enquanto milhares de pessoas estão presas pela criminalização da maconha em cadeias que, no Brasil, mais parecem campos de concentração, a hipocrisia de grande parte de nossa sociedade chega a tal ponto, que uma cervejaria se apropria da gíria maconheira como sua propaganda. Da boa e do bom são modos encontrados para dizer, sem dar bandeira, que determinada maconha é de boa qualidade. Em razão da criminalização da maconha e do bom humor de seus curtidores, metáforas, anagramas e gírias sempre foram formas de expressão de maconheir@s. Algumas ganharam tanta força que ultrapassaram as rodas da erva da paz e ganharam as ruas das cidades, como: maconha da boa ou fumo do bom.

A cerveja deve ser legalizada, como é. A hipocrisia é a cerveja ser legal, enquanto a maconha é barbaramente criminalizada e, ainda mais, se usar a gíria dos criminalizados para fazer a propaganda de uma droga legal. Que legalizem então as duas, não apenas uma. No carnaval, se alguém fumar ou vender a maconha “da boa” será preso, enquanto se alguém beber ou vender a cerveja da boa será festejado.

O pior é que além da apropriação da nossa gíria, essa marca atua como se a cidade fosse dela. Os ambulantes de cerveja, tão brutalmente perseguidos cotidianamente pelas ruas da cidade, se forem cadastrados pela Prefeitura e venderem apenas a marca da boa, poderão comercializar esse produto à vontade. Trata-se da privatização das ruas, do capital agindo como se fosse dono do que não pertence nem ao mercado nem ao público, mas ao comum, aquilo que é de todos nós: as praças, ruas e avenidas da nossa cidade. O camelô que estiver vendendo produtos industrializados, comprados por ele, em isopor dele, se não for cadastrado pela Prefeitura para vender uma única marca, terá seus produtos tomados pelos agentes da segurança pública pagos por nossos impostos. É a sociedade do Estado e do mercado agindo como se fosse dona da cidade. Tratamos aqui de práticas infrativas ao mercado, tanto com a criminalização da maconha, um produto concorrente, quanta a proibição da concorrência do mesmo produto, com a monopolização da venda de uma única marca.

Por isso, a luta contra o capital não está mais apenas dentro dos muros das fábricas do capitalismo industrial, mas está em todos os cantos da cidade, contra toda essa hipocrisia. O capital quer estabelecer o que devemos consumir e como devemos viver e morrer.

A explicação da proibição da maconha é materialmente histórica e tem suas raízes no racismo. Foram os negros escravizados no Brasil, degredados da África, que vieram açoitados em terríveis navios negreiros, que trouxeram as sementes de maconha escondidas em bonecas de pano. A maconha sempre foi chamada pejorativamente de droga de pobre. Foram os negros que resistiram em suas bocas de fumo nos morros da cidade com a compra e venda de maconha. A proibição da maconha se explica pelo fato de que todos os hábitos dos negros eram perseguidos e criminalizados pelos crimes contra a polícia de costumes. Se hoje o sistema penal estimula a entrada da polícia em bairros, chamados pejorativamente de favelas, atirando ao meio-dia, na saída de escolas públicas, matando crianças, isso é diretamente ligado à escravidão.

A luta pela legalização da maconha é a luta contra o racismo e contra a brutal desigualdade social de toda essa hipocrisia capitalista que vivemos. Vamos ao Planta na Mente na quarta-feira de brasas nos Arcos da Lapa e à Marcha da Maconha no dia 7 de maio no Jardim de Alah, sempre partindo às 16:20 horas em 2016, o ano 420!!!

*Ilustração: Angelo – Smoke Buddies.