19.1.16

AS FILAS DE JANEIRO NO PAÍS DOS 2% MAIS RICOS

Por RICARDO KOTSCHO - Via blog do autor -

"Não tem mais lugar. Os ingressos estão esgotados", informou-nos, na tarde de sábado, o rapaz da bilheteria do cinema onde pretendíamos assistir ao filme "A grande aposta". Filas imensas formavam-se diante dos outros guichês e o movimento no shopping Pátio Higienópolis lembrava o da semana de Natal, tanta gente se espalhava por todos os corredores. Enfrentamos fila até para tomar um café. A escada rolante quebrou e os elevadores não davam conta da freguesia. Nem parecia que estávamos em pleno mês de janeiro.
Desistimos e resolvemos ir jantar no restaurante "Le Jazz", nos Jardins, antes das oito da noite, quando o movimento ainda costuma ser fraco. Pelo movimento na calçada, porém, já dava para ter uma ideia do desafio. "Só vamos ter mesa daqui a uma hora", desanimou-nos o garção amigo. Eu queria ir embora, mas minha mulher achou melhor esperar porque em outros lugares, como vimos no caminho, não seria diferente. Quando saímos, depois das dez, ainda havia fila de espera.
No domingo, resolvemos não arriscar, e resolvemos comprar logo cedo os ingressos para o teatro pela internet. Não havia mais meia entrada para idosos na peça "Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos", com Marisa Orth, no Teatro Procópio Ferreira. Só tinham sobrado dois ingressos a R$ 180 cada um, mais R$ 30 da taxa de conveniência para compra pela internet. Total da brincadeira do casal: R$ 420, fora o café e a pipoca.
Dava quase meio salário mínimo para ir ao teatro, mas resolvemos fazer esta extravagância (valeu a pena porque o espetáculo musical, dirigido por Miguel Falabella, com grande elenco, é realmente muito bom). A opção era passar o fim de semana em casa.
No verão da grande crise, tínhamos acabado de voltar do litoral norte, onde o cenário era o mesmo: quiosques, restaurantes, padarias, praias, estacionamentos, tudo superlotado. E a crise?, perguntarão vocês, com razão, achando que estou aqui querendo fazer o jogo do contente, dando uma de poliana, enquanto todos os indicadores econômicos oficiais mostram o aprofundamento da recessão.
Uma pesquisa da Tendências Consultoria Integrada, divulgada no sábado pelo Estadão, revelando que a distribuição de renda no Brasil é pior do que se imaginava, ajuda-nos a entender esta aparente contradição (ver matéria completa no R7).
Para vocês terem uma ideia, segundo o levantamento feito pelos economistas Adriano Pitoli, Camila Saito e Ernesto Guedes, baseado nos dados da Receita Federal, as 2,5 milhões de famílias da classe A (2% da população, com renda superior a R$ 15 mil) abocanham 37,4% de toda a renda nacional. Isso significa que a renda dos mais ricos é 40,9 vezes maior do que a soma das classes D e E.
Como boa parte destas famílias mais abonadas vive em São Paulo, o Estado mais rico do país, as filas de janeiro na praia e na cidade podem indicar que este ano a classe A viajou menos para o exterior e por menos tempo, mas a sua alegre rotina não mudou, e a farra do consumismo continua em alguns nichos, enquanto crescem as levas de brasileiros em busca do seguro-desemprego.
"Todo mundo sabia que a desigualdade de renda no Brasil era enorme, mas ela é muito maior do que se imaginava", conclui o economista Adriano Pitoli. A atual crise econômica apenas agravou os sintomas desta secular doença social, que criou um abismo entre ricos e pobres, e deveria nos envergonhar a todos.
E vamos que vamos.