23.1.16

CHARLIE HEBDO “ERROU A MÃO”

Por EDUARDO DA SILVEIRA CAMPOS - Via Observatório da Imprensa -
Ridendo dicere severum é uma expressão latina que afirma que rindo dizemos o que é sério. Todo bom humor dá esse riso com muita seriedade. A caricatura também faz o mesmo quando põe suas lentes de aumento exagerando aquilo que está insinuado, aumentado em desarmonia com o todo. Se um nariz está avantajado, se uma orelha ainda que discretamente aparece demais, o caricaturista, com seu olhar arguto, percebe a desarmonia e aumenta propositadamente aquilo que, por ser discreto, o olho comum não conseguiria ver.
Charlie Hebdo, o conhecido jornal francês semanal, quando indicou há dias através de ilustração que o menino refugiado morto seria um potencial molestador, inverteu o sentido da caricatura: tomou o que era realmente demais (sério) e o reduziu; pegou o que estava em harmonia e o aumentou. Rompendo assim com o sentido gracioso de toda boa caricatura, o jornal satírico perdeu a graça quando forjou algo “sério” para justificar o seu “riso”. Ao forjar o sério, i.e, forçar uma caricatura do que não está aumentado, para assim ganhar o estatuto de caricatura, deu um riso sozinho de bobo, um riso de desesperado que ri de tudo porque não encontra nada que possa ser de fato sério.
Por outro lado, é inegável que a morte de franceses provocada por grupos ligados ao EI é, sim, algo terrível e muito sério. Entretanto, Charlie Hebdo faz humor com um perigoso espírito nacionalista, cuja “noção de seriedade” não nasce da própria seriedade, mas de uma moralidade comprometida com uma moral incapaz de rir de si mesma, mas apenas dos outros. O humor comprometido com a moral não consegue ver o que é realmente sério, forjando por conseguinte “falsas seriedades” advindas de caprichos pessoais. O realmente “sério” está para além de uma vontade particular, de um querer afetado.
A caricatura de Charlie Hebdo quis justificar um erro com outro erro. Ele disse por mensagem e imagem: menos nádegas serão palpadas sem a devida permissão das mulheres, uma vez que um menino de três anos, um potencial “apalpador”, foi afogado enquanto fugia de seu país para não ser morto. Isso não é risível – é ridículo! A caricatura nunca foi tão mal representada! Não queremos dizer com isso que palpar nádegas por aí sem a permissão de uma mulher seja algo aceitável.
No entanto, a caricatura do jornal mostrou com seu ridículo riso que matar, ou deixar morrer, é banal. Banalizou a morte enquanto matar ou deixar morrer quando justificou um erro mortal com um erro de costumes. Essa lógica é tão perversa quanto a lógica daquele que, ao ser assaltado por um negro, declara que “devemos matar todos os negros para que os assaltos diminuam”. Em suma: a caricatura de Charlie Hebdo é moralista – é careta! Mostrou apenas a tosca careta do que é ridículo, escondendo o riso caricatural daquilo que é realmente sério.
Charlie Hebdo deve ser punido por isso – e nada melhor que o riso de escárnio que ri sem pena do ridículo de um humor que não foi capaz de fazer rir.
*Eduardo da Silveira Campos é professor e doutorando em Filosofia.