8.1.16

ELEIÇÕES NO RJ: A ESQUERDA PODE DERROTAR O PMDB

Por MARCIO SALES SARAIVA - Via blog do autor -


O senador Lindbergh (PT)[1] abriu dissidência dentro do seu partido para apoiar Marcelo Freixo (PSOL) para prefeito do Rio de Janeiro. Bem, é melhor ver petistas votando em Freixo do que no PMDB, ainda que o partido de Lula e Dilma vá marchar majoritariamente com a escória de Cabral, Pezão, Paes e companhia. Além disso, até que ponto o apoio de Lindbergh, neste momento, ajuda o candidato do PSOL? Lembremos de Dilma e Lula na campanha de Edmilson Rodrigues em Belém do Pará, em 2012. Em contexto distinto, o PT acabou atrapalhando o PSOL que ficou identificado como fachada “radical-chic” do governismo lulo-dilmista. A ver.

O PCdoB deve aderir ao PMDB também, em nome da “governabilidade nacional”, mas tem muita gente envergonhada dentro deste partido e que torce pela candidatura de Jandira Feghali. Na prática, o eleitor carioca que tem identidade com PT/PCdoB deve votar mesmo em Alessandro Molon (REDE)[2] ou Freixo (PSOL), mas poucos terão “peito” para apoiar o nome indicado pelo Eduardo Paes (PMDB), ainda que parcela significativa da direção do PT/PCdoB tenha vivido dentro do governo dele. Essa é a “ex-querda” que qualquer direita ama, pois colabora com o sistema vigente e empresta “verniz social” aos candidatos das oligarquias financeiras-empresariais.

Eduardo Paes teve pouco mais de 2 milhões de votos em 2012 e, com o apoio do PT e do PCdoB, levou a eleição já no primeiro turno, com 64% dos votos. Mas Freixo (PSOL) surpreendeu com quase 1 milhão de votos (28%). Uma prova empírica que o eleitorado de esquerda está vivíssimo na cidade, o que falta é unidade na esquerda. Além disso, Paes está desgastado, enfrentará muitos protestos em 2016 (saúde, transportes e obras superfaturadas são temas explosivos!) e ainda não tem um bom nome para representá-lo no processo eleitoral. O seu querido Rodrigo Bethlem, ex-xerife do Rio, renunciou ao mandato de deputado federal para não ser cassado e está encalacrado na Justiça. Era o homem forte de Eduardo Paes. Depois da queda de Bethlem, entrou Pedro Paulo que está sendo chamado de “espancador de mulheres”.  O violento machista está com dificuldades para emplacar seu nome, até no PMDB.

Já o PCB e o PSTU ainda não fecharam nada (até onde sei), mas seria interessante se os mesmos formassem uma frente contra a máfia do PMDB. Ao invés de insistir com candidatos abaixo de 1%[3], esses partidos poderiam construir uma frente democrática-popular para derrotar a direita com um programa ambientalmente sustentável, progressista no campo socioeconômico e radicalmente democrático/horizontal. De qualquer forma, o nome do prof. Mauro Iasi (PCB) é muito digno.

Clarissa Garotinho (PR) tem força no eleitorado mais empobrecido e localizado nos grotões da cidade, mas cometeu um erro grave. Apoiou o direitista DEM na última eleição, colocando-se servilmente como vice de Rodrigo Maia, filho do ex-prefeito Cesar Maia. Ela é bem maior que ele. O seu resultado eleitoral foi lastimável. Obteve apenas 3% dos votos (95 mil eleitores embarcaram nessa chapa). Seus eleitores – e os eleitores de seu pai – não aceitaram essa aliança com o DEM e podem “punir” Clarissa retirando votos agora. Penso que, no quadro atual, a filha de Garotinho não chegaria a 10%. Se Romário (pelo PSB ou pelo PSDB?) sair como candidato também, ele, que teve 4,7 milhões de votos para senador em 2014, “abocanha” eleitores da mesma faixa socioeconômica de Clarissa[4] e de Marcelo Crivella (PTB, ex-PRB, o sobrinho de Macedo teve 1,6 milhão de votos na última eleição para governador).

Outros nomes aparecem aqui e ali, mas são figurantes, segundo time. Esses nomes citados acima são os verdadeiros “jogadores” dessa eleição de 2016 na cidade do Rio de Janeiro, pelo menos, até aqui (janeiro de 2016) são os nomes mais significativos.

Pela esquerda, teríamos então Alessandro Molon (Rede)[5], Marcelo Freixo (PSOL) e alguém do campo PCB-PSTU-PCO (caso esses últimos insistam em sair com candidaturas isoladas).

Na direita teremos um nome do PMDB (Pedro Paulo, Osório ou Rafael Picciani?) com apoio de Pezão, Cabral, Lula, Dilma, mais “80 partidos” e toda a oligarquia financeira, industrial, comercial e oligopólios midiáticos. Satanás virá com toda a sua falange.

Disputando o eleitorado mais empobrecido, com perfil de centro e apelos mais populistas, teríamos as candidaturas de Clarissa Garotinho (PR), Romário (será que vem mesmo?) e do bispo da Igreja Universal Marcelo Crivella (agora no PTB). Há quem fale em Índio da Costa (PSD), mas este fala somente para um setor da sociedade, o eleitorado “emergente” de classe média-alta. Índio teve quase 92 mil votos em 2014 e é a cara e a voz dos emergentes da Barra.

O nome mais forte do “centro populista” seria o de Romário, sem dúvidas. Depois dele, o bispo Crivella pode surpreender, pois o eleitorado conservador-evangélico lhe dá uma base importante. Só para lembrar, no Rio de Janeiro, os católicos não são maioria da população.

O meu palpite é que teremos um segundo turno entre o candidato da máquina (PMDB) e um nome da esquerda (Molon ou Freixo?). Dessa vez, a esquerda carioca poderá levar a melhor se conseguir superar suas neuróticas divergências internas e falar ao coração dos eleitores, mobilizar sonhos. Há no eleitorado carioca certo enjoo diante das mesmas promessas de sempre, do velho jogo das oligarquias políticas.

Crivella e Romário ameaçam sim, são dois nomes fortes, mas o eleitor parece buscar algo mais radical. É aí que Molon e Freixo levam vantagem. Ambos não têm rabo preso com as oligarquias da cidade e estão mais bem preparados para enfrentar a máquina do PMDB com obras, truques publicitários e muito dinheiro.

NOTAS:
[1] Lindbergh teve 800 mil votos no estado em 2014, ficando em quarto lugar para o governo do Rio (com a chapa PT/PV/PSB/PCdoB) com 10% dos votos. Tarcísio (PSOL) surpreendeu com pouco mais de 700 mil votos (9%) e apenas ¼ do tempo de rádio e TV de Lindbergh.
[2] Que recentemente deixou a esquerda do PT e filiou-se a Rede Sustentabilidade, sendo atualmente líder da REDE na Câmara Federal. Obteve 87 mil votos (1%) para deputado federal em 2014. Com todas as dificuldades enfrentadas pela “marca PT”, Molon, ainda assim, foi o mais votado da lista.
[3] Na última eleição municipal, em 2012, o candidato do PCO (Antônio Carlos) não teve 1.000 votos e o do PSTU (Cyro Garcia) teve mais de 12 mil votos (0,4%). Na eleição de 2014, o PCB lançou Ney Nunes para governador e este obteve 9 mil votos (0,1%) enquanto Dayse Oliveira, do PSTU, teve um pouco mais de 33 mil votos (0,4%). Se somarmos PCB, PSTU e PCO, os três não chegam a 1% do eleitorado. Claro que isso não é critério de verdade e, em geral, as minorias é que fazem a mudança histórica, mas, convenhamos, esses números pífios exigem alguma reflexão e autocrítica dos camaradas. No mínimo, esses partidos não conseguem dialogar com o povo carioca.
[4] Clarissa teve 335 mil votos (4%) para deputada estadual em 2014.
[5] A Rede Sustentabilidade ainda não decidiu, mas Molon é o nome mais forte e que, até onde apuramos, une o partido na cidade. No Rio, a REDE tem outros nomes importantes como o vereador Jefferson Moura, o deputado Miro Teixeira, a advogada e ambientalista Sonia Rabello, o sindicalista Célio Gari, o vereador Marcio Garcia e a jornalista e ex-vereadora Andrea Gouveia Vieira. Os porta-vozes estaduais da REDE são dois professores: Ana Paula Moura (UFRJ) e Luiz Eduardo Soares (UERJ).