11.1.16

OS FATOS QUE TRANSFORMARAM 2015 NUM ANO NEFASTO

Por LEONARDO BOFF - Via O Tempo -
O ano de 2015 merece esta qualificação latina: “annus nefastus”. Ocorreram tantas calamidades que, além de espanto, nos causam preocupações. A primeira delas é o Dia da Sobrecarga ou da Ultrapassagem da Terra, ocorrido em 13 de setembro. Nesse dia, a Terra revelou que seu estoque de suprimentos para manter vivo o seu sistema ultrapassou os limites. Como a Terra é um superente vivo, os sinais que nos envia de que não aguenta mais são as secas, as enchentes, os tufões e o aumento da violência no mundo. Tudo está ligado a tudo, como nos repete insistentemente o papa Francisco em sua encíclica.
Associado a esse fato, é ilusório o consenso alcançado no dia 12 de dezembro com a COP21, em Paris: o aquecimento deveria ficar abaixo de 2°C, rumando para 1,5°C até meados do século. Isso implica uma troca de paradigma de civilização não mais baseada em combustíveis fósseis, uma vez que todas as energias alternativas juntas não chegam a 30% do que precisamos.
O terceiro evento nefasto é a violência terrorista na Europa e na África, os milhares de refugiados e a guerra que as potências militaristas movem contra o Estado Islâmico e outros grupos armados na Síria. Outro fato nefasto é a transformação dos Estados Unidos num Estado terrorista, intervindo direta ou indiretamente onde percebem seus interesses imperiais ameaçados. Internamente, o Ato Patriótico não foi abolido e representa a suspensão de direitos fundamentais. Não é sem razão que a polícia norte-americana matou, em 2015, cerca de mil pessoas desarmadas, 60% das quais eram negros ou latinos.
TRAGÉDIA EM MARIANA
Outro fato “horribilis” foi o rompimento da barreira de dejetos de minério da Samarco, em Minas Gerais, poluindo o rio Doce por quase 700 km. Não bastasse essa desgraça, surgiu entre nós uma onda de ódio, de raiva e de preconceito. Não é de admirar, pois o Brasil é cheio de contrastes, como bem viu Roger Bastide em “Brésil, Terre des Contrastes” (Hachette, 1957), e antes dele Gilberto Freyre, que escreveu: “considerada em seu conjunto, a formação brasileira foi um processo de equilíbrio entre antagonismos”.
Esses antagonismos, quase sempre mantidos sob o manto ideológico do “homem cordial”, saíram do armário agora e se mostram claramente, de modo particular, pela mídia social. O “homem cordial” que Sergio Buarque de Holanda tomou do escritor Ribeiro Couto é, geralmente, muito mal compreendido. Não tem nada a ver com a civilidade e a polidez, mas sim com a nossa aversão aos ritos sociais e aos salamaleques.
NASCEM DO CORAÇÃO
Trata-se de um comportamento brasileiro que se rege antes pelo coração que pela razão. Ora, do coração nascem a gentileza e a hospitalidade. Mas, como bem acentua Buarque de Holanda, “a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade nisto que uma e outra nascem do coração”. Esse equilíbrio frágil se perdeu em 2015 e irrompeu a cordialidade negativa, como o ódio, o preconceito e a raiva contra militantes do PT, contra nordestinos e contra negros. Tais expressões apenas revelam nosso atraso, a ausência de cultura democrática, a intolerância. Não se pode negar que se verificou em certos setores a raiva aos pobres que ascenderam socialmente, graças às políticas sociais compensatórias (mas pouco emancipatórias) do governo do PT. Mas há uma ruptura social no Brasil que nos custará muito costurar.
No meu entendimento, só a partir de uma real democracia participativa, que vá além da atual, farsesca, pois representa antes os interesses dos grupos beneficiados do que os do povo como um todo. O que nos vale é a nossa superabundância de esperança, que supera o “annus nefastus” na direção de um “annus admirabilis”. Que Deus nos ouça.