5.1.16

OS IMPASSES DA ECONOMIA GLOBAL E A CHINA

Por LUIS NASSIF - Via Jornal GGN -

Como segunda economia do mundo, há duas maneiras pelas quais a crise da China impacta o Brasil: a maneira direta, pela redução das exportações de commodities; a maneira indireta, pelos impactos na economia global.
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Os impactos diretos são contornáveis. De um lado, há uma redução na quantidade e nos preços das exportações. Por outro lado, a maxidesvalorização do real, no ano passado, repõe os ganhos dos exportadores e permite o reequilíbrio das contas externas, mesmo com a queda nas exportações.
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O problema são os impactos indiretos, a perda de dinamismo da economia mundial, que não se consegue recuperar da crise de 2008.
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Como alerta o economista Paul Krugman, o problema não é a economia, mas a política e a ideologia.
As últimas décadas foi um período marcadamente dominado pelo capital financeiro. A partir dos anos 70 tem início um prolongado processo de desregulação da economia mundial que conferiu ao capital financeiro não apenas a influência majoritária sobre as políticas econômicas como sobre o establishment acadêmico.
Desde o século 19 tem sido um movimento cíclico, entre o câmbio regulado (sob o padrão ouro, antes, sob o padrão dólar depois) e o livre fluxo de capitais.
Há todo um histórico de crises financeiras quando se abre mão da regulação: no final do século 19, nos anos 20, nos anos 80, 90. Já existe uma exaustiva literatura econômica analisando o processo. A falta de regulação induz o mercado a criar novas ferramentas financeiras nas quais aparentemente o risco fica diluído entre vários elos da cadeia. Até que um evento qualquer provoca um efeito em cadeia, resultando em crises sistêmicas.
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Como diz Krugman, foi o mercado quem provocou a crise e a desigualdade. Por si, não resolverá esses problemas. Há a necessidade da atuação do setor público. E aí se esbarra em questões ideológicas, políticas e no que Krugamn taxa de “fetiche do déficit”.
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Em todo processo de crises estruturais de sistemas políticos, há o problema do dia seguinte, o vácuo que se cria até que ideias alternativas ganhem consistência política.
O controle político é obtido através da parceria acadêmica e de um discurso que chama ao senso comum, do sacrifício que conduz ao pote de ouro no fim do arco-íris. É o mito da lição de casa – que nada tem a ver com a necessidade de políticas fiscais e monetárias responsáveis. Essa construção foi facilitada pela permissividade monetária do FED, criando um clima artificial de crescimento da economia norte-americana.
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2008 significou o fim do sonho, mas não da hegemonia financista sobre o Banco Central Europeu e sobre as principais economias europeias e do que Krugman taxa de “fetiche do superávit”.
A economia global enfrenta uma deficiência de demanda agregada, fruto da crescente desigualdade entre países e do que ele classifica como “onda irracional de austeridade fiscal”.
Os do topo gastam menos do que os da base, de modo que o dinheiro se move para cima e a demanda cai. É o caso da Alemanha que tem mantido superávits externos recorrentes. Essa posição europeia afeta a economia norte-americana que sofre de forma mais suave o rigor fiscal do que na Europa. Mesmo assim, a mão de obra no setor público caiu 500 mil pessoas, em relação ao período pré-2008.
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Há uma enorme poupança empoçada, especialmente nos fundos de longo prazo – os fundos soberanos e fundos de previdência. A infraestrutura, os serviços públicos e os investimentos ambientais são setores preferenciais. Mas não há projetos devido à obsessão com a questão fiscal e o viés ideológico contra qualquer ativismo nas políticas públicas.
Em outros momentos, esse impasse resolveu-se com guerras.
Felizmente, é uma hipótese ultrapassada.