3.1.16

TV CÂMARA TIRA DO AR CRÍTICAS DE DEPUTADOS A EDUARDO CUNHA

Por ISABEL BRAGA e EVANDRO ÉBOLI - Via Instituto João Goulart -

Parlamentares que tiveram falas editadas ou excluídas criticam presidente da Câmara.


A TV Câmara censurou e cortou críticas diretas de deputados ao presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), no programa “Fatos e Opiniões”, veiculado na semana da histórica sessão de 19 de novembro, uma quinta-feira. Nesse dia, em duras falas, deputados acusaram Cunha de interferir no Conselho de Ética da Casa em benefício próprio. Última a discursar, a deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP) calou o plenário ao dizer que Cunha deveria dar o exemplo aos colegas e deixar a presidência. O levante culminou na saída de cerca de cem deputados do plenário em direção ao conselho.

VEJA: Trechos de depoimentos de deputados sumiram na TV Câmara.

Uma versão feita originalmente pelos jornalistas da TV incluía as críticas a Cunha e chegou a ser veiculada pelo portal da TV na internet. Na noite de sexta-feira, porém, a TV Câmara veiculou uma versão com cortes, sem ataques diretos a Cunha, do programa que tem por propósito retratar os principais fatos da semana no plenário da Casa. Cunha foi cobrado e questionado em plenário depois de passar a presidência da sessão a Felipe Bornier (PSD-RJ), que decidiu anular a sessão do Conselho de Ética que tentava votar relatório que pedia a abertura de processo por quebra de decoro parlamentar contra o presidente da Câmara. A atitude revoltou deputados de oposição e governistas, que passaram a cobrar, nos microfones, que o ato de Bornier fosse revisto.

— Chega senhor presidente. O senhor não consegue mais presidir. Levanta dessa cadeira Eduardo Cunha — disse Gabrilli.

A primeira versão, sem cortes e na internet, retratou o episódio por 9 minutos e 20 segundos, do programa de quase meia hora. Quando o programa foi ao ar na TV, as críticas diretas a Cunha sumiram. Não só as de Gabrilli como de outros. Só colocaram trechos leves. O corte foi de seis minutos e, na versão editada, a rebelião em plenário caiu para 3 minutos e 20 segundos. Na internet, a versão original também foi substituída pela editada.

Atual líder, deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ) vai tentar a reeleição Escolha de líder do PMDB divide grupos pró e antigoverno.

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), recebe jornalistas setoristas para café da manhã de confraternização Cunha classifica como ‘peça teatral’ pedido de Janot contra ele. Eduardo Cunha em entrevista para a TV Câmara Eduardo Cunha usa a TV Câmara para atacar o governo e o PT.

No caso de Gabrilli, a versão editada inseriu apenas uma fala dela: a parte em que a deputada diz que o deputado Felipe Bornier não poderia ter cancelado a sessão do Conselho de Ética. Não foram incluídos nenhum dos trechos das críticas que ela fez a Cunha.

— Naquele dia, uma das coisas que me fez entrar em ebulição foi porque eu vi o presidente cerceando a palavra dos deputados. Isso diz respeito à mesma coisa. Você empobrece o conteúdo da Câmara — afirmou ela.

A líder do PCdoB, Jandira Feghali (RJ), foi outro alvo da censura com toda a frase em que diz que Cunha está “diretamente envolvido no caso investigado” sendo cortada. Outro que some na versão editada é o tucano Betinho Gomes (PE), que classificou a atitude de Cunha de “autoritária e arbitrária”.

O líder do PPS, Rubens Bueno (PR), também teve sua frase desidratada. Na versão original, Bueno dizia que Cunha “perdeu as condições de presidir a Casa”. Na editada, essa frase sumiu. Mendonça Filho (PE), líder do DEM, foi outro atingido por ter dito na sessão que o plenário está sendo “instrumentalizado” para inviabilizar o processo de apuração do caso Cunha.

“NÃO HOUVE O CONTRADITÓRIO”

A direção da TV Câmara confirmou o corte na edição e ainda disse que a primeira versão, não cortada e que chegou a ir ao ar na internet, foi um erro. O diretor-executivo da Secretaria de Comunicação Social da Câmara, Cláudio Lessa, sustentou que os cortes foram feitos porque Cunha não se defendeu durante a sessão, apesar de estar presente e presidindo-a. Cunha adotou como estratégia não responder aos discursos críticos a ele em plenário. Lessa afirma que Cunha não interferiu na decisão da censura:

— Eles estavam batendo no Cunha, mas ele não se defendia. Não houve o contraditório. Ele não respondia e não dava o contraponto. Corríamos o risco de ser injustos e tendenciosos naquela primeira edição.

Os deputados atingidos pelos cortes cobraram um posicionamento da Mesa Diretora da Casa sobre o fato.

— Ele (Cunha) sendo denunciado por todos os lados e vem uma tesoura como nos tempos da ditadura para censurar? — criticou Rubens Bueno.

— Não é aceitável edição de matérias que venha atender a interesse particular de ninguém do ponto de vista político, partidário ou ideológico. A Câmara tem o dever de zelar pela memória histórica — disse Mendonça Filho.

— É muito grave saber que o presidente da Câmara está censurando a manifestação dos deputados — disse Betinho.

Procurado pelo GLOBO, Eduardo Cunha disse estranhar que o Grupo Globo se preocupe com as matérias da TV Câmara, quando, segundo ele, as reportagens da TV Globo sobre seu envolvimento na Lava-Jato dão mais espaço a ataques de seus adversários.

As reportagens sobre o parlamentar, assim como todas as outras exibidas na TV Globo, zelam pelo equilíbrio e pela isenção jornalística.

Cunha responde a três inquéritos. O peemedebista é investigado por manter contas bancárias secretas na Suíça com dinheiro supostamente desviado da Petrobras; por corrupção passiva e lavagem de dinheiro; e por suposto uso da presidência da Câmara e do mandato para atrapalhar investigações da Lava-Jato.

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