6.2.16

CARNAVAL DE SALVADOR E O PRIMO DE ACM NETO

Por ALTAMIRO BORGES -


Nos últimos anos, o DEM - um condomínio partidário fisiológico e direitista - sofreu drástica redução do seu número de senadores, deputados, vereadores, prefeitos e governadores. Os demos quase foram parar no inferno - para o desespero do capeta. Alguns de seus líderes chegaram a prever a extinção da sigla. ACM Neto, eleito prefeito de Salvador em 2012, foi um dos poucos políticos com projeção que sobreviveu na organização moribunda. Neste período, ele tentou "modernizar" a sua imagem - muito associada ao velho coronel ACM e aos escândalos de corrupção da sua legenda. Para isto, o prefeito contou com a cumplicidade da mídia chapa-branca, que evita investigar as denúncias de podres na sua administração. Muito raramente elas aparecem na imprensa, como agora no período de Carnaval.

Segundo matéria publicada na Folha de terça-feira (2), "o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), renovou por cinco anos um contrato que cede o uso de uma praça da cidade para instalação de camarote, durante o Carnaval, cuja empresa dona tem um primo dele entre os sócios. Considerado um dos mais luxuosos do Carnaval da capital baiana, o Camarote Salvador fica no bairro de Ondina e pertence à Premium Entretenimento, que tem entre os donos Luís Eduardo Magalhães Filho. O camarote abriga até 5.000 pessoas por dia, com ingressos que chegam a custar R$ 1.890".

Ainda de acordo com a reportagem, "o contrato foi originalmente firmado em 2011 na gestão do ex-prefeito João Henrique Carneiro (PR). Ele previa a reforma da praça e R$ 1 milhão em dinheiro para o caixa da cidade, como contrapartida. Na época, a instalação gerou protestos e desencadeou o movimento Desocupa Salvador, que criticava a ocupação de espaços públicos por camarotes. Com o fim do contrato, em 2015, o município tinha como opção renová-lo por mais cinco anos ou abrir uma nova concorrência pública para a cessão do espaço. A prefeitura escolheu a renovação".

O luxuoso camarote do primo do prefeito continua gerando controvérsias. Par o antropólogo Ordep Serra, um dos líderes do movimento Desocupa Salvador, "não se justifica uma praça ser sacrificada para desfrute privado e lucro de algumas pessoas. Isto vai na contramão do que deve ser o espírito democrático do Carnaval", afirma. Já a promotora Rita Tourinho, que acompanhou o contrato pelo Ministério Público, argumenta que não há impeditivo legal para a renovação, mas observa que a prefeitura poderia ter aberto o espaço ao público ou feito uma nova licitação.

Diante das críticas à negociata entre parentes, o secretário de Urbanismo de Salvador, Sílvio Pinheiro, garante que o contrato foi renovado dentro da legalidade. "Segundo ele, o fato do local atrair turistas e gerar arrecadação tributária justifica a instalação do equipamento na área pública. 'A gente avaliou que era um equipamento importante para o Carnaval da cidade. Se não renovássemos, eles poderiam instalar-se fora do circuito [da festa], o que seria ruim', diz o secretário" - segundo a matéria da Folha, que fez questão de ouvir o "outro lado" para limpar a barra de ACM Neto, o único sobrevivente da tragédia do DEM.