9.2.16

CARNAVAL: UMA FESTA SEM DONO. A VERDADEIRA ALEGRIA DA FOLIA NÃO DEPENDE DA TV

ALCYR CAVALCANTI -

"Super-escolas de Samba SA, Super Alegorias,
Escondendo Gente Bamba, Que Covardia"
(Samba do Império Serrano 1982 de Arlindo Machado)

O Carnaval carioca é a maior festa popular do mundo. Não depende das câmeras de televisão, nem dos arroubos de governantes que só aparecem nas quadras e nos desfiles para conseguir votos e enganar eleitores que ainda acreditam em promessas que jamais serão cumpridas. Este ano foi o "Carnaval da Vaquinha" em que o famoso "livro de ouro" foi passado para conseguir botar o bloco nas ruas. Na Folia de Momo tudo pode acontecer, inclusive escolas que gastaram o que puderam e o que não puderam para seus cento e poucos minutos de fama, por meio das objetivas mágicas das câmeras de TV.

O "Maior Show da Terra" segundo patrocinadores.
O "choque de ordem" que o prefeito quis impor aos foliões é de uma perfeita inutilidade, o carnaval carioca é a expressão do caos, que se auto organiza, onde tudo se confunde em uma perfeita inversão: homens se vestem de mulheres, adultos de crianças, crianças de super-heróis, pessoas comuns em figuras famosas, onde em muitas ocasiões existe uma anulação entre as barreiras entre as classes e categorias sociais, embora de maneira efêmera. Nas escolas de samba, pelo menos nos dias de hoje essa comunhão que é o verdadeiro espírito do carnaval não tem acontecido, as escolas de samba se transformaram em "Super-Escolas de Samba SA" conforme o inesquecível samba do Império Serrano com alegorias imensas e destaques fantasiosos fruto do delírio de carnavalescos alucinados,  em que apenas com muito capital é possível desfilar no Sambódromo. Se não for assim o jeitinho é desfilar na Intendente Magalhães.


Muito esforço para o desfile de alguns minutos de fama.
Mas nos últimos anos uma emissora de TV monopolizou o desfile das escolas de samba e tem determinado o horário, número de componentes e o tempo do desfile, que mais parece uma correria desenfreada. Escolas que investiram milhões de reais para uma apresentação relativamente pequena estão se sentindo prejudicadas, a transmissão das primeiras escolas como sexta feira  no Grupo de Acesso a Acadêmicos da Rocinha e uma das mais tradicionais no "Grupo de Elite" a Estácio de Sá, que já foi São Carlos, não aconteceu, deixando todo mundo a ver navios, a blasfemar contra a emissora do Jardim Botânico. Conversei com um dos diretores da Rocinha que contou as imensas dificuldades de colocar com dignidade uma das mais jovens grandes escolas na Marquês de Sapucaí. A "dona da transmissão" optou por levar a milhões de espectadores as desventuras dos "heróis" da novela das oito, que agora é levada ao ar às nove ou a triste exibição do teatrinho do "Big Brother" em sua centésima edição. Mais uma "bola fora" da emissora de TV que detém os direitos exclusivos de exibição e segue a fria lógica da economia de mercado, cuja essência é a acumulação de capital em que a máxima é "que o povo se exploda" conforme o jargão usado pelo comediante. Mas nem assim vão conseguir acabar com o tradicional e irreverente espírito dos carnavalescos da cidade que brincam o carnaval sob as bênçãos do padroeiro São Sebastião ou de São Jorge-Ogum que abençoou não só a Estácio São Carlos mas todos os verdadeiros filhos da folia, que só querem se divertir para esquecer as dificuldades do dia a dia.