6.2.16

PARECE QUE FOI ONTEM

Por ALBERTO VILLAS - Via CartaCapital -

Vi aparecer muita coisa nesse mundo desde que nasci.

Outro dia comecei a enumerar para as minhas filhas, coisas que não tinham lá pelos anos 1950, quando nasci.
Passei a minha infância inteira ouvindo essa ladainha:
- No meu tempo não tinha televisão!
Toda vez que aparecia uma novidade em casa, um Toddy instantâneo, um Magiclik, uma faca elétrica ou um neon da Coca-Cola piscando no centro da cidade, o meu pai vinha com essa história:
- No meu tempo não tinha televisão! 
Ele achava que mundo diferente, era aquele da sua infância, sem televisão. Dali pra frente, o mundo estava perdendo a graça porque não ia ter mais nada o que inventar. 
Se eu for me assustar e queixar desse mundo em que vivemos hoje, argumentando que bom mesmo era o meu tempo de criança que não tinha celular, por exemplo, estou perdido. 
Outro dia comecei a enumerar para as minhas filhas, coisas que não tinham lá pelos anos 1950, quando nasci. Elas arregalaram os olhos e acharam mesmo que eu era um pai do outro mundo. 
No meu tempo – como dizia o meu pai - não tinha caixa eletrônico, não tinha cartão de crédito, não tinha  cheque especial, não existia senha. Não tinha microondas, não tinha máquina de lavar louça, não tinha nem mesmo faca de porcelana. 
Não tinham inventado o celular! Pra fazer um selfie, você tinha de apertar um botãozinho na câmera e sair correndo a tempo de sair bem na foto. 
Imagine que não tinha a moça do telemarketing! Tinham as telefonistas, que passavam o dia em mesas cheias de fios, apertando botões  tentando fazer uma ligação interurbano para o Rio de Janeiro. 
No meu tempo não tinha velcro, não tinha computador, foto digital, WhatsApp, Netflix, TV a cabo, TV de LED, controle remoto, não tinha programa de culinária, nada disso. 
Não tinha carro flex e os automóveis  não tinham cinto de segurança, som, vidro elétrico, nem freio ABS. Nas ruas, não havia pardais que multavam os motoristas e nas estradas, nada de pedágio, nem Sem Parar. 
No meu tempo não tinha aplicativo nenhum, não tinha Waze, Easy Táxi, App Store, nada nada. 
No meu tempo de menino não tinha e-ticket, não tinha booking.com, não tinha Decolar, não tinha Airbnb, TripAdvisor, não tinha caneta esferográfica, não tinha fotografia colorida. Um dia, minha filha ainda pequenininha, vendo o meu álbum de infância, perguntou: 
- Quando você era criança, o mundo era preto e branco? 
No meu tempo não tinha blog, não tinha site, não tinha Google, nem Wikipédia. Não tinha interfone, CD, DVD, VHS, secretária eletrônica, nem videogame. No meu tempo de criança não tinha nem Aqualung. 
Quando eu era criança, não tinha fralda descartável e não tinha lenço de papel. Não tinha fila de espera nos restaurantes, não tinha garrafinha pequena de cerveja, não tinha prato individual, só o PF no boteco da esquina. 
No meu tempo não tinha kiwi, não tinha tomate cereja, lichia, nem pitaia. Goiaba, manga, carambola, jabuticaba, só no pé. Uva, ameixa vermelha e pêssego, só no Natal. 
No meu tempo não havia McDonalds, Bobs, nem Burger King. Não tinha chester! Não tinha supermercado! Minha mãe fazia as compras no armazém e o dono anotava tudo numa caderneta pra ela pagar no final do mês. 
No meu tempo, transar era curtir um babado, Mauricinho era o filho do Seu Mauricio e coxinha era apenas um salgadinho espetado num palito, que a gente comia nas festas infantis. 
Zica, ah... Zica era apenas uma mulher cem por cento, sambista lá do morro da Mangueira. Era aquela que fazia um caldinho de feijão como ninguém, esposa do genial Cartola, aquele que compôs O mundo é um moinho.