20.2.16

POETAS E POESIAS DE ONTEM E HOJE

CELLY ADELINA -


Que não seja em vão...

Doa, se é tua missão.
Faça-se em mim, então.
Que tudo se resuma,
Que todo o sofrimento se condense,
Que eu seja capaz de suportar,
Encarar de frente o ruído do tempo,
Suas ressonâncias em meus arrependimentos.
Coma, se é tua devoção,
O holocausto sem fim dos povos!
Ria-se, pois inda tens o domínio das carnes.
Mas temos a Graça, da posteridade, além de ti.
Resta o alvorecer...

Prazeres, óleos animais que deixas escorrer da boca,
Saliva e sangue,
Num ritual entorpecedor.
Doa, se é teu desígnio!
Torture as emoções,
Contagie a mente com tuas imundices.
Temos, ainda, e sem merecimento, a Graça.
Graça que abraçamos ante chagas,
Gotas brilhantes de lágrimas,
Pelo reflexo do sol.
No retumbar de tuas bombas,
No espreito de tuas calamidades.
Por que?
O mistério é a doação,
A mensagem passa pela cruz,
Não termina na ressurreição,
É a eterna miscigenação própria do amor.
Dor, doa, não lamento.
Quando o limite chega,
Perdemos o sentido,
Pois nos é dado
Pouco suportar do sofrimento.

Que palavra me foi dada?
O canto reservado,
Ecos proliferados de contemplação
E de vitória final,
Mas não há fim, apenas o estado da plena paz,
Que é o instante no qual sentimos,
No qual sentimos, sentimos, além de nós...


Quanto nos custa os paradigmas?
Nos impõem grades,
E permanecemos uivando ante elas,
Praguejamos e não avançamos.
Rejeitamos o riso, pela simples hipótese
Dele se acabar.
Vivemos formigas,
Morremos em nós mesmos
Não temo a dor, apenas lamento
Que tenha permissão de existir,
Mas não é em vão
Não é  em vão vossa paixão.
Deixe-me partir
O jugo pesa demais.
Meu pesar é leve quando
Me chama a voz da Justiça.
Quanto parca!
Quanto larga?
A maneira de pedir, de buscar,
De bater à porta.
Hoje é um ponto no tempo
O feito não muda,
Ao que está para ser feito,
Este é nosso verdadeiro domínio.
Ao Senhor do Amor,
Graças!
À minha vaidade, esse gemido de vergonha.

Nossas limitações não são nossos limites.
Nossos limites fazem a limitação.

Não se escolhe o amor.
Ele chega, se instala,
Enquanto choramos, ele parte sorridente,
Em busca de alguém melhor,
Que seremos nós,
Após viver o nosso próprio veneno,
Sem olhar a quem, sem culpar o além,
Assumamos a consequência de nossos erros!
Aceitemos a misericórdia de Deus!
Perdoemos a todos, a nós mesmos,
Até mesmo às gerações que nos trouxeram à vida carnal.

E se fez carne, o que era um ponto de luz...
O martírio que nos serve
É tolice à razão.
Um dia compreenderemos...
Aceitar Deus não é fácil,
Porque somos feras primitivas.
Tememos o fogo por desconhecer a origem.
Nosso limite é a morte.
A morte não é nossa limitação.
Basta acreditar.
Já foi dito: “Crê”
Mas foges pelos vãos,
Duvidas e morres,
Se te entregas compreendes o amor.
Tens, então, a vida.