20.2.16

UMA GENERALIZADA SENSAÇÃO DE DESORDEM

Por ALBERTO DINES - Via Observatório da Imprensa -


…ou de extrema vulnerabilidade, vertigem de beira de abismo, náusea causada por queda abrupta. Não na esfera mística, escatológica. Oliver Sacks, o celebrado neurologista anglo-americano, chamado de “poeta laureado da medicina contemporânea” não foi o descobridor desta síndrome, mas foi quem melhor a descreveu cientificamente e a dramatizou num extraordinário ensaio com este mesmo título pouco antes de morrer em agosto passado vitimado por selvagem câncer no fígado.

Cunhada na metade do século XIX pelo fisiologista francês Emile du Bois-Reymond para descrever suas penosas enxaquecas, serviu pouco depois para explicar a insólita constatação do poeta-pensador americano Ralph Waldo Emerson sobre a afasia (mais tarde conhecida como doença de Alzheimer) que o vitimara: “Perdi minhas faculdades mentais, mas sinto-me perfeitamente bem”.

Incômodo sem doença, indisposição sem dor, esta generalizada sensação de desordem (que, com toda a certeza, logo será abreviada como GSD – General Sensation of Disorder) não é causada pelo retorno do invencível Aedes aegypti, embora as façanhas de uma de suas crias, o vírus da Zika, inclua-se entre as possíveis causas desta angústia aguda, paralisante e universal.

A GSD é, na realidade, mais próxima de Sigmund Freud e tão próxima que pode ser confundida com uma de suas obras mais conhecidas — “O Mal-Estar na Civilização” – escrita em 1929, pouco antes do crash da Bolsa de Nova York. Freud evidentemente não estava antenado nos fenômenos econômicos, no máximo reagiu como antropólogo social ao detectar aquele tremendo mal-estar psicológico em meio ao desvario do final dos anos 20. Tal como o Mal du siècle diagnosticado pelo romântico Chateaubriand, ou o “Efeito Werther” incubado no clima produzido pelo “Werther” de Goethe. Inércia combinada à morbidez, vazio pós-racionalista, ofuscamento depois do clarão iluminista, expectativa associada a perplexidade.

A GSD estudada por Sacks pode manifestar-se em situações de extrema insegurança e descontrole. Como as que precedem as guerras ou sucedem às catástrofes naturais. Estar mal não é achaque, é uma inadequação extremada, desequilíbrio, desajuste. Guerra é a desordem em grau máximo – como todas as convulsões e tormentas, emite avisos quando a soma de pulsões e pressões chega à zona de perigo.

Como agora. A crise brasileira supera com incrível velocidade todas as marcas e previsões. Versão diabólica da Lei de Murphy converte o pior em muito pior, o péssimo em catastrófico. A certeza de que as soluções vão demorar e que ninguém está cuidando do Day After, faz da fadiga impaciência e desta o combustível para fricções inimagináveis. À combinação de cinismo com prepotência acrescenta-se agora uma carga de imundice que converte uma solução apenas tóxica em matéria altamente corrosiva.

A conjuntura externa não poderia estar melhor, já que parte das nossas aflições se nutre em desacertos contíguos, antigos, mais fundos, planetários. Passadas sete décadas, os mesmos paroxismos que produziram a Segunda Guerra Mundial, incrivelmente tonificados pelo que se convencionou chamar de “progresso” ai estão na mesmíssima e sábia Europa exibindo a inutilidade dos aprendizados, do conhecimento e até do sofrimento.

Não foi o acaso que armou no idioma alemão em pleno romantismo o composto vocabular conhecido como Weltschmerz, Dor de Mundo. O mundo não foi feito para doer, mas dói. A generalizada sensação de desordem captada por Oliver Sacks tem jeito, tem cura, tem preço.