23.3.16

COXINHAS, MIDIOTAS E VÍRUS ZIKA SOCIAL

EMANUEL CANCELLA -


Ontem, 22, na Fundição Progresso, no centro do Rio de Janeiro, aconteceu um encontro de artistas contra o golpe. Chamou minha atenção o discurso do diretor teatral Amir Haddad. Amir foi meu professor na Escola de Teatro Martins Penna, um homem que nunca quis trabalhar na grande mídia e que já mostrou suas qualidades, entre outras pérolas, quando emocionou o mundo dirigindo a comissão de frente da escola de samba Beija Flor, em 2003. Amir dirige o grupo teatral “Tá na Rua”, que já formou vários artistas.

Amir, em 1978, no restaurante Planalto do Flamengo, buscava refúgio para companheiros perseguidos pela ditadura que acabava de baixar, se não me engano, o AI.5. Digo isso para informar que o compromisso de Amir com a democracia vem de longe. Ele nunca se rendeu à grande mídia e, pelo que eu sei, nunca foi ligado a nenhum partido.

Mas ele, depois de 61 anos de teatro, continua lúcido e brilhante, pois em seu discurso Amir acrescentou ao cardápio político que denomina os reacionários como coxinhas e midiotas, Amir criou o Vírus Zica Social. Segundo Haddad, o sintoma do vírus se manifesta na pessoa quando, de alguma forma, ela se manifesta contra o avanço social, o verdadeiro motivo do golpe. Ele disse ainda que a maior forma de contaminação é pela mídia manipuladora.

Eu presenciei uma amiga na academia de ginástica manifestar a contaminação do vírus quando ela dizia para condenar Lula porque ele teria ido 101 vezes ao sítio. (Ela deveria perguntar se há provas de que o sítio é de Lula e também para medir 101 vezes exatamente seria preciso ponto eletrônico).

Outro contaminado foi um padre que disse que seria a favor da entrega da Petrobrás por conta da corrupção, mas alguém lembrou a ele que a igreja católica então deveria ser destruída por conta dos padres pedófilos.

O vírus se manifesta de outras formas, como no dono de um pet shop, no qual sou freguês há mais de 5 anos, falando da corrupção no governo, questionando o programa “Bolsa Família”, aliás nunca vi esse comerciante dar nota fiscal de venda para ninguém; outro espaço comercial que frequento várias vezes por semana, o imóvel pertence à Santa Casa e, por ação do nada, “fiel depositário”, virou locação de um negócio privado e particular, esse proprietário questiona o uso de parte das reservas cambiais do país. É preciso que se diga que o Brasil possui, entre os países, uma das maiores reservas cambiais e que foi obra dos governos do PT, e que pode ser usada. Já o governo FHC, sua última ação foi um empréstimo de U$ 40 bi ao FMI. Além das reservas, com o PT, o Brasil quitou a dívida com o FMI, sendo hoje cotista e dirige o Fundo, além de participar com o cotista e indicando dirigente do banco dos BRINCS.

Outro infestado pelo vírus é uma vizinha que foi expulsa do condomínio do prédio por desvio de valores. Essa senhora falou alto e para que todos ouvirem que o grampo de Lula e Dilma é legitimo e quem não deve na teme. Em Lula e Dilma não encontraram nada, mas a intimidade de qualquer pessoa precisa ser preservada.

Por último, um petroleiro aposentado que chama Lula e Dilma de ladrão, esse senhor voltou a trabalhar na Petrobrás, nas mesmas situações trabalhistas com que se aposentou, mas se dependesse do governo FHC esse senhor não estaria mais na empresa e aqueles, que ele agora acusa, barraram a privatização da Petrobrás, o que lhe garante o emprego.

Não vale dizer o nome dessas pessoas para não expô-las e também porque essa doença tem cura. É preciso um pouco de paciência para tratar o zika social, principalmente no sentido de tentar esclarecer a sociedade.

A nível de partido de oposição de esquerda, só o PSTU está resistindo, isolado, ao tratamento. A nível individual, eu sou testemunha da cura de vários companheiros que foram para a manifestação contra o golpe, porque entenderam que o ato do dia 18, que para alguns foi para defender Lula e Dilma, para muitos foi para defender a Constituição Federal e a democracia.

Assim como o combate do vírus Zika, propriamente dito, começa em casa, o da Zika Social não é diferente. Faça a sua parte!

*Emanuel Cancella é coordenador do Sindicato dos Petroleiros do Estado do Rio de Janeiro (Sindipetro-RJ) e da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP).