14.3.16

EM 1945 A PRIMEIRA ELEIÇÃO DIRETA, EM 1998 A PRIMEIRA REELEIÇÃO

HELIO FERNANDES -


15 de novembro de 1889, madrugada, escura, turva, cinzenta, surgia a tão desejada Republica. Mais anti-republicana, impossível. Nesses 127 anos decorridos aconteceu de tudo, sem exclusão dos fatos inacreditáveis de agora. Completavam-se 100 anos da Constituição dos EUA e a eleição direta do primeiro presidente, George Washington. Essa Constituição ficou sendo a única e todos os presidentes, eleitos com o voto do povo. (Única exceção: depois do impeachment-renúncia de Nixon, com o vice fora do cargo, assumiu o presidente da Câmara, Gerald Ford. Episodio que pode muito bem se repetir hoje, no Brasil).

Don Pedro Segundo era bem mais republicano do que os militares que assumiram o poder por 15 meses até 25 de fevereiro de 1891. E nesse dia, reconduzidos indiretamente até 1894. Deodoro Presidente, Floriano vice e Ministro da Guerra, comandando o exercito formado para a estranha e mal contada Guerra do Paraguai.

Em 1886, o Imperador pediu ao Primeiro Ministro Ouro Preto, que convidasse Rui Barbosa para Ministro da Justiça. Resposta educada mas imediata de Rui: "Por favor agradeça ao Imperador, mas diga que estou envolvido num movimento que será vitorioso com a sua participação ou com a sua ausência se for necessário". Era a Republica.

Rui concordou em ser Ministro da Fazenda e redigir o ante projeto da Constituição, que relatou como senador. Criou as famosas clausulas "pétreas”. Para ele a mais importante era a alternância no Poder, com o impedimento da reeleição. Em 1894 tomou posse o primeiro civil, Prudente de Moraes. Fez um bom governo, defendendo sempre o interesse nacional.

Em 1896 recebeu um Rotschild, que agressivo e mal educado em falar sobre a dívida externa. (Hoje se chama divida publica). Prudente tocou a campainha, veio um continuo, ordenou: "Leve o senhor até á porta, ele está de saída". Quase no fim do governo, começaram a falar em reeleição, não quis nem conversa, passou o cargo a Campo Salles, indicado pelo Partido Republicano, o único.

Governou exatamente o contrario de Prudente, favorecendo interesses estrangeiros. No segundo ano do mandato foi á Inglaterra. Em Londres andou de carro aberto com outro Rotschild (eram 5 irmaõs), percorreu a Old Bond Street, o centro financeiro da capital. Renovou o contrato da "divida", em condições desvantajosas para o país.

Tentou a reeleição, recusa total. Ninguém foi reeleito, até que surgiu o golpe de 1930, com Vargas 15 anos no poder. Sem eleição e sem vice. Derrubada a ditadura, em 1945, houve a primeira eleição considerada direta. Mas os dois candidatos serviram longamente ao ditador, no arbitrário "estado novo", de 1937 a 45. Dutra Ministro da Guerra 8 anos, foi eleito.

Vargas voltou por pouco tempo. Aí em 1955, direta verdadeira, Juscelino contra Juarez Távora. Eleito, JK quase não tomava posse, governou até o fim. Mais tarde confessaria: "Tentei a reeleição, vi que não dava, abandonei as conversas, lancei minha candidatura para 1965, uma eleição que não houve".

Depois de 29 anos, em 1989 houve outra direta com muita confusão. O surpreendente Collor venceu, ficou pouco tempo. Com o impeachment assumiu o vice Itamar. Como não havia reeleição, seu mandato era de 1ano e 11 meses. Jogou tudo em cima de FHC, senador em fim de mandato. Nomeado logo Ministro da Fazenda, e acumulando a seguir com o do Exterior, e a credibilidade de Itamar, derrotou Lula no primeiro turno.

Mas isso era pouco para tanta ambição. Acabando o mandato, começou logo a cuidar do roteiro da continuação. Rasgou a Constituição liquidou a clausula "pétrea", sem ética e sem caráter na vida publica ou particular, comprou a reeleição á vista, mais 4 anos.

Essa compra foi caríssima, não se sabia de onde viera tanto dinheiro. A "delação" de Delcídio pode trazer explicações. FHC é fortemente citado, junto com o Vice Temer. Aliás, estiveram juntos no episodio da tentativa de impeachment. FHC foi salvo pelo suplente de deputado, Michel Temer que ocupava a presidência da Câmara. Pode ter sido o Eduardo Cunha da época, também é citado na "delação" do senador. Com ele não acontece nada, vide o caso da infidelidade conjugal.

A reeleição de Dona Dilma e tudo que vem acontecendo desde a segunda posse tem que ser colocado na conta ambiciosa, ruinosa e tenebrosa de FHC. Sem reeleição, Dilma teria ficado apenas 4 anos. Destruída a "pétrea" tão ciosa para Rui Barbosa, Dona Dilma ficou outros quatro, ninguém sabe o que vai acontecer. Se ela tivesse deixado o governo em 2014, sem reeleição, teria sido uma péssima administração, não a catástrofe sem fim, que paralisou o país. 2014 sem a recondução de Dona Dilma, teria vindo alguém que faria tudo diferente. Ou erraria da mesma forma, mantida a alternância do Poder.