19.3.16

EM SÃO PAULO, ATO EM DEFESA DA DEMOCRACIA REÚNE 500 MIL NA PAULISTA. FORAM MAIS DE 1,3 MILHÃO EM TODO PAÍS

Por RUTE PINA - Via Brasil de Fato -


As manifestações pela democracia que ocorreram nesta sexta-feira (18) em todos os estados reuniram mais de 1,3 milhão de pessoas em todo o país, segundo a Frente Brasil Popular (FBP). Em São Paulo, segundo os organizadores, cerca de 500 mil pessoas também foram às ruas contra a tentativa de "golpe" em curso com o pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

A presença da periferia foi marcante na mobilização que, por volta das 16h, já contava com a participação de cerca de 80 mil pessoas na Avenida Paulista, local da concentração. A maioria dos manifestantes chegaram de ônibus e comboios de vários locais da cidade como M'Boi Mirim e Butantã. As linhas Verde e Amarela do metro, que chegam até a Paulista, estavam tranquilas e muitos manifestantes subiram à pé desde a Praça Roosevelt.

Nivive Ferreira, 20, esperava colegas do bairro de Heliópolis que chegariam, segundo ela, em um comboio de 10 ônibus. "No domingo, não vi ninguém da minha comunidade participar. As pessoas estavam no bar! E a gente não participa destes atos porque é a gente que mais sofre com a polícia e com a falta de políticas públicas", afirmou.

A estudante de comunicação, que trabalha na onganização não-governamental (ONG) União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (Unas), afirma que os bairros de periferia também estão mobilizados contra um impeachment, que, em sua opinião, representaria um atraso ao Brasil. "Eu tô participando porque não quero um retrocesso das coisas, não quero um retrocesso dos direitos dos gays, das minorias, entre outros", afirmou.

Pluralidade

O aposentado Edelcio Pereira, 56, afirmou que a vontade de sair às ruas na tarde desta sexta-feira se deu para "lutar pela democracia" e contra um possível golpe iminente no País. Ele, que acompanhou muitos protestos na década de 1980, aprovou a pluralidade dos atos. "Um país de uma minoria só é um país sem graça e é isso que a direita quer", disse.

Grupos de feministas, sindicalistas, intelectuais, políticos e até de mães se aglomeravam na avenida Paulista. A professora de ioga, Julia Borges Calderone, 32, estava na manifestação com sua filha de nove meses. Ela e um grupo de mães fizeram de um apartamento nos arredores da Paulista uma base para as mulheres que precisassem dar uma pausa para descansar, amamentar ou trocar os bebês.

"O melhor presente que posso dar para minha filha é lutar pelo futuro. Parece piegas, mas fico pensando qual é o país que vou deixar para minha filha. Quando ela for adolescente ela vai viver em um país democrático ou repressivo?", questiona Julia.

A quantidade de jovens impressionou Natalia Rampazzi e Datieli Albuquerque, ambas de 17 anos. "A média de idade aqui deve ser de 19 anos", brincou Natália, estudante de filosofia. Ela e a amiga, que estuda Direito, entraram neste semestre como bolsistas pelo Programa Universidade para Todos (ProUni) na Universidade São Judas. "Eu acho que tem mais jovens aqui. A gente tende a ser sentir mais revolta. E também porque sinto que o governo no PT [Partido dos Trabalhadores] tem mais políticas públicas voltadas para a juventude", disse.

Elas estavam em frente à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) enquanto um grupo protestava contra a instituição. "Ão, ão, ão, cadê o filé mignon", cantavam em referência ao almoço que a instituição ofereceu aos manifestantes pró-impeachment que ocuparam a avenida na quinta-feira (17). Alguns, entoavam também frases contra a Rede Globo.

Natália disse concordar com o protesto contra a emissora. Segundo ela, muito do clima de polarização política no país tem a ver com a cobertura da imprensa. "Conversar em casa, por exemplo, anda muito difícil. E antes todo mundo era petista. Acho que tem muito a ver com o fato de parecer que a crise nunca vai acabar. E eu acredito que vai passar", afirmou. Datieli acrescentou: "Um impeachment não vai resolver a crise econômica, pode só agravar".

Lula

Por volta das 19h30, o ex-presidente e agora ministro da Casa Civil, Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso inflamado onde prometeu que entrou no Governo para "ajudar Dilma a fazer o que tem que fazer".

“Eu aceitei participar do governo porque ainda falta mais de dois anos de Governo Dilma e é tempo suficiente para a gente virar a história desse país. Para aqueles que nos odeiam, respeitam o voto de 54 milhões de brasileiros", disse o ex-presidente. "A democracia é a única possibilidade possível".

Após o discurso de Lula, vários artistas como Flora Mattos e MC Sofia, de 12 anos, se apresentaram para o público onde se posicionaram a favor da democracia.