22.3.16

O SONHO DO SOCIÓLOGO

CARLOS CHAGAS -

As disputas políticas costumam surpreender, algumas até acordes com a natureza das coisas, outras nem tanto, pois sem pé nem cabeça. Exemplo de uma destas está para entrar em campo. Por trás de mais uma das entrevistas com que o ex-presidente Fernando Henrique nos brinda todas as semanas sobressai uma que precisa ser lida nas entrelinhas. Falando à Folha de Paulo, o orgulhoso sociólogo deu todos os sinais de que apesar de seus 84 anos, anda de olho no palácio do Planalto. Sua estratégia vem sendo revelada por seus mais íntimos auxiliares e explica porque, da noite para o dia, ele passou a férreo defensor do impeachment não apenas de Dilma Rousseff, mas da defenestração conjunta da presidente da República, mas também de seu vice, Michel Temer. Sustenta que o Tribunal Superior Eleitoral deveria considerar nula a eleição da dupla eleita ano passado, por descumprimento da lei. O processo já tramita, até com o beneplácito do ministro presidente daquela corte. Nesse caso, uma das alternativas seria a eleição direta para completar o mandato ora em curso.

Os candidatos possíveis andam por aí, como pelo PSDB posicionam-se sem muita  tesão Aécio Neves e José Serra, condenados apenas dois anos de poder. Pior ainda para Geraldo Alckmin, que como os dois anteriores preferiria posicionar-se para um período completo, a partir de 2018. Ciro Gomes poderia arriscar-se pelo PDT. Marina Silva, pela REDE. Algum desconhecido pelo PMDB. E os mesmos de sempre, carentes de popularidade. No meio dessa fauna sem empolgação, por que não Fernando Henrique Cardoso? Afinal, seu passado supera os outros, em especial por não precisar arriscar quatro anos, mas apenas dois. Seria o encerramento de sua carreira.

Sonho de noite de verão em pleno outono? Nem pensar. A personalidade de FHC o faz pensar em supremacia intelectual sobre os demais, assim como fidelidade a uma  espécie de mandato-tampão tão a gosto de seu passado. Foi senador por acaso, dada a prevalência de Franco Montoro e uma estranha lei que favorecia o segundo colocado. Depois, a benevolência de Itamar Franco e a luz do Plano Real. Nessa equação, a sorte é o fator principal, repetindo-se agora o mesmo jogo. Pelo menos, nos  cálculos do ex-presidente. Quem duvidar, que aguarde...