20.3.16

OCTÁVIO BRANDÃO, UM PATRIOTA NA ACEPÇÃO DA PALAVRA

GERALDO PEREIRA -


Nas terras alagoanas, precisamente na cidade de Viçosa, nasceu em 12 de setembro de 1896, o escritor Octávio Brandão. Ele foi o primeiro brasileiro a pesquisar petróleo, tinha 20 anos e uma profunda preocupação com o futuro da sua Pátria, quando deu início a uma dezena de excursões por todo o seu estado natal, percorreu mais de 1.500 quilômetros, sendo 600 a pé.

O objetivo era “estudar a Terra e o Homem, pesquisar a Natureza Viva, o Povo e a História, descobrir as riquezas naturais em geral e o petróleo em particular, investigar a formação e o desenvolvimento da Terra e as condições de vida do Povo”, nos diz Octávio Brandão, no seu livro Canais e Lagoas.

Em Viçosa, também, nasceram os seus primos Teotônio Brandão Vilela e o cardeal Avelar Brandão Vilela, de saudosas memórias. Lembrando que, Viçosa também nos deu o atual Ministro da Defesa e ex-presidente da Câmara dos Deputados, nosso estimado Aldo Rebelo!

Foi o escritor Permínio Asfora quem me aproximou de Octávio Brandão, através de uma palestra que pronunciou em Maceió, em 1946, publicado numa revista literária do Recife, sobre a importância desse grande brasileiro, que naquele ano regressava à sua Pátria, depois de 15 anos de exílio. Octávio, com a esposa a poetisa Laura Brandão, tinham sido deportados para a Alemanha, em junho de 1931, pelo governo de Getúlio Vargas. A foto abaixo é do casal a bordo do vapor alemão Weser que os levou deportados para a Alemanha em companhia das três filhas: Sátva, Vólia e Dionysya.

Tive a imensa satisfação de gozar da amizade do velho Octávio Brandão, exemplar ser humano, patriota admirável. Quantas e quantas vezes almoçamos em nosso apartamento na Tijuca. O apartamento era térreo, um pequeno jardim com flores, uma goiabeira nos proporcionava uma sombra amiga. Duas cadeiras e um papo gostoso, com Octávio, lembrando a cada instante da esposa querida, a poetisa Laura Brandão, que, com ele passou toda a Segunda Grande Guerra Mundial, na União Soviética e lá descansa eternamente. De quando em quando Octávio levantava-se caminhava entre as flores e com a voz embargada pela saudade, dizia: “Laura gostava muito da natureza. Essas flores me lembram muito de Laura. Ela descansa no cemitério em Moscou. Sinto muito a falta dela.”

Em 1968, a ditadura militar estava no apogeu, encontro Octávio no Largo da Carioca, falando alto para um grupo, como se estivesse na Tribuna, gesticulava muito, convidava os presentes a se rebelarem contra a ditadura militar. Cumprimentei-o; “Vamos almoçar, vamos almoçar!” Ele corria um super risco de ser pego e torturado ali mesmo, e quem sabe mais tarde assassinado, quando os órgãos da repreção descobrissem quem ele era.

Acompanhei com vivo interesse o lançamento do seu livro “Os intelectuais progressistas”, editado pelo velho Antônio Simões dos Reis, meu grande amigo, também de saudosa memória.

Em 1956, e dois anos após “O niilista Machado de Assis. Os machadianos ‘caíram de pau’ em cima do autor.

Filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil (PCB), ainda em 1922, poucos meses após a sua fundação. Octávio Brandão, com Minervino de Oliveira foram os primeiros parlamentares comunistas do Brasil. Ambos foram eleitos intendentes (vereadores), em 1928. Ambos foram eleitos para a Câmara de Vereadores do Distrito Federal, como se chamava antigamente a cidade do Rio de Janeiro. Em 1946, depois de quinze anos de exílio, Octávio se elege vereador.

Do seu livro de memórias “Combates e Batalhas”, primeiro volume, editado pela Alfa-Omega em 1978, recortei algumas partes, o segundo não foi editado dado o seu falecimento, no Rio de Janeiro, em 15 de março de 1980.

Do livro publicado extraí alguns trechos autobiográficos:

Aos oitenta anos de idade, dos quais 65 de lutas, depois de tantas vidas vividas, numa só vida, creio que tenho o direito de evocar as recordações. Fazer o balanço dos combates travados e experiências vividas – em vista do presente e do futuro. Faço, também, uma prestação de contas ao povo brasileiro e ao proletariado internacional”. [...] No final de tantos combates e batalhas, reafirmo categoricamente: “A causa pela qual me bati é ideologicamente justa e moralmente nobre! Tive alegrias na vida. Quais?”

“O amor sublime de Laura Brandão. As seis filhas. Os sentimentos elevados que encontrei nos amigos, camaradas e nobres amigas. O convívio com os operários, o estudo das obras de Marx, Engels e Lênin – os três maiores Mestres de toda a Humanidade. As vitórias do socialismo na União Soviética e nas democracias populares. A marcha dos movimentos nacional-libertadores da Ásia, África e América Latina.

Mas, a vida é feita de contrates. Tem o sim e o não. O verso e o reverso. Passei momentos felizes. Mas, não tive uma existência venturosa. E como poderia ser feliz, nas condições do Brasil pré-capitalista e do mundo burguês atual?

Além disto, a morte de minha mãe e a de Laura são como um lamento infinito.

Senti a totalidade ilimitada da Vida. Mas, por toda parte, encontrei limites, barreiras e obstáculos intransponíveis.

Dei tudo ao Brasil, sacrifiquei a saúde e a liberdade. Arrisquei a vida muitas vezes, mas não encontrei Justiça nem compreensão.

Vivi num ambiente de pobreza econômica, dificuldades financeiras, perseguições políticas, preterições sociais dores morais, injustiças intelectuais. A existência consumiu-se no trabalho, na paixão, na amargura, no esforço penoso. Mas, em vista de algo historicamente necessário.

Não vivi num manso lago azul, pelo contrário. Coube-me uma vida dura, difícil e dolorosa. Quando? Onde? Nas lutas, no ambiente atrasado do Nordeste em 1912-1919. Durante os quatro anos de estados de sítio no Brasil, em 1922–1926. Na guerra mais terrível de toda a História Universal – a guerra da Alemanha nazista contra a União Soviética 1941-1945.

Vitima de um processo monstruoso por ideias e não por delitos, em 1948–1960. No meio de tremendas atribulações, em 1964–1977.

Contribuí para dotar o Brasil, com uma riqueza imensa – o petróleo. Mas, não tenho trabalho, nem saúde, nem aposentadoria. Só aos 80 anos de idade é que consegui um ‘benefício’, por velhice, rende por mês, apenas meio salário mínimo, 384 cruzeiros e é tudo.

Por amor aos ideais de libertação do Brasil e da Humanidade, aguentei 17 prisões, a mais profunda solidão e as piores masmorras: a chamada ‘geladeira’ na Polícia Central, o ‘necrotério’ e os ‘sete círculos do inverno’, na Casa de Detenção no Rio de Janeiro. Poderia ter 50 prisões – por ideias – dezenas de vezes a polícia política invadiu meu lar, revolveu tudo. Mas não me encontrou. Suportei 4 anos de Estado de Sitio no Brasil, 4 anos de expurgos de Stalin, e 4 anos de guerra fascista hitleriana contra o país do socialismo. Afrontei mais de 15 anos de exílio na Europa. Voltei ao Brasil, vivi proscrito 8 anos dentro da própria pátria. Fiquei exilado de Alagoas, minha terra natal, durante 41 anos. Senti, pois, durante tantos anos a nostalgia do Brasil e a saudade de Alagoas.

Tive cassado o mandato de vereador. Suportei 8 anos de vida ilegal, clandestina e subterrânea, de 1950-1958. Sem ter cometido nenhum crime, fui cassado e acossado por bando de espiões. Sujeito a um mandato de prisão preventiva e a muitos anos de cadeia. Sem poder trabalhar, sem dinheiro, largado, desamparado, doente, na pobreza, mas humano, sempre firme e inquebrantável!

Nos últimos anos, vivi muito preocupado com a situação trágica do Brasil, com a terrível tensão internacional e as atitudes absurdas do governo da China Popular, além das dores pessoais – os inúmeros reveses, injustiças e incompreensões.

Pelejei sempre. Recorri as minhas armas – a pena e a palavra falada. Vivi através de combates, perigos e tormentos. Conheci a felicidade das batalhas e vitórias. Travei as lutas, cheio da grande paixão revolucionária. Duramente golpeado nos combates, atirava-me novamente à batalha.

Desafiei a adversidade. Tirei partido do próprio infortúnio. E, assim, forjei os elementos necessários ao um novo destino, digno de viver.

Afrontei os doídos turbilhoes da Vida. Naveguei contra a poderosa correnteza do imperialismo internacional. Como diz Shakespeare em Rei Lear, senti a roda da tortura deste mundo cruel. Procurei abrir uma brecha, uma muralha de pedra deste mundo burguês, tão duro, egoísta e selvagem.

Em face dos golpes da Vida, não quebrei, nem verguei. Não me dobrei diante dos reveses, não me desesperei. Não capitulei. Lancei desafios à desventura. Tirei partido da própria desgraça.

Em consequência da luta das classes, carrego um destino terrível. Recusei aceitar passivamente uma existência cômoda, tranquila, adaptada ao regime social dominante. Por isto, afrontei um destino trágico. Continha, porém, os germes de uma vida bela em proveito do Brasil e da Humanidade”.

Resgatar a memória desse saudoso brasileiro me deixa muito feliz (GP)