22.3.16

ONDE ESTÁ A SAÍDA?

Por PERCIVAL MARICATO - Via Jornal GGN -


A presidência está fragilizada. Dilma cometeu erros na economia e na política. A instabilidade nesta última levou a agravamento da crise econômica. Lula, apesar de sua habilidade, pode estar chegando tarde demais e tem que se defender de fogo cerrado, equivalente ao sofrido por Getúlio e Jango. Infelizmente, não se vê alternativa de apaziguamento e saída da crise enquanto essa guerra continuar. A guerra mantém a insegurança, política, econômica e consequentemente jurídica, com paralisação ou fuga de investimentos, deterioração da situação econômica e social, etc. Todos perdem.

O Congresso Nacional tem uma massa de partidos e políticos fisiológicos. As lideranças dos grandes partidos podem sentar e encontrar alternativas efetivas. Tudo indica que só as lideranças políticas detém a chave da saída.

O terceiro poder é o Judiciário. Há juízes se mostrando mais partidários que neutros. A maioria sabe de suas imensas responsabilidades em uma hora como esta. E no topo está no plenário do STF, onde reside a maior esperança de manutenção das instituições, do Estado Democrático de Direito, da convivência minimamente civilizada entre os brasileiros, até que se encontre uma alternativa viável, pacífica, civilizada, para a crise.

Isso é tanto mais importante quando se constata pela pesquisa Datafolha, (insuspeita para quem está contra o governo), deste domingo, sobre preferência dos eleitores para presidente. Esquerda e direita continuam dividindo a preferência dos brasileiros, em condições de igualdade. Se somarmos as preferências por Lula, Ciro e Luciana Genro,  a esquerda, apesar de sob fogo intenso, têm 26% enquanto Aécio, Bolsonaro e Caiado tem 27%. Consideremos os votos de Marina, 21%, como de centro ou mais para o centro (não nos esqueçamos de suas posições sobre proteção de terras indígenas, meio ambiente etc e que na pesquisa havia várias opções de  candidatos nitidamente de direita e esquerda) e que ainda há cerca de 20% de brancos e nulos (o restante ficou com candidatos menos cor. Temer nunca passou de 1%). No momento, o centro de Marina e brancos e nulos, fiel da balança, estão contra o governo, mas mesmo assim os 26% de brasileiros à esquerda, uns 40 milhões de pessoas adultas, não deixam de ser uma força considerável, especialmente se somarmos a manifestação de juristas, artistas, intelectuais, lideres religiosos e de trabalhadores.

A mídia é um quarto poder, as influentes são propriedades privadas sobre o qual a sociedade não tem controle. Mas poderá recuar de posições incendiárias se os principais lideres políticos se porem de acordo, encontrarem alternativa aceitável e com apoio social.

Por fim, tornou-se importante a parcela de personalidades brasileiras que quer reduzir o acirramento das tensões políticas, resgatar a serenidade e o equilíbrio, evitar o crescimento do ódio, do rastilho da intolerância aos que pensam diferente, ou a proliferação de informações  fraudulentas e sobre privacidade das pessoas, ventiladas como se fosse algo normal, ingredientes que dividem cruelmente e por décadas as sociedades. Este grupo luta por uma manutenção do Estado Democrático de Direito e tem crescido.

O problema, porém, não é o governo resistir, muito menos a oposição conseguir o impeachment,  mas encontrar a saída do impasse, solução para ambas as crises. Sem novidades no jogo político, a saída está distante. Dilma  governa com dificuldade, mas e Temer? No dia posterior a posse de um Temer, não haveria explosão de demandas sociais? As ruas voltariam a admitir a soberania das urnas? Nem mesmo a eleição em 2018, se é que a teremos, pode ser solução sem redução da fratura. E até lá, até onde iria a deterioração e o conflito? A saída, com ou sem impeachment, exige negociação, algum tipo de pacto político e  reformas política e do estado. Já tivemos pactos sociais, como os que já foram feitos em Israel, Espanha e outros países onde governo, empresários e trabalhadores sentaram e acertaram agendas para superar períodos difíceis. Por que não fazê-lo no Brasil, por pelo menos um período de transição, enquanto se faz uma reforma política e do estado, a busca de uma solução estrutural?