16.4.16

A LUTA SEM FIM

CARLOS CHAGAS -


Tanto quanto Dilma Rousseff, Michel Temer se transfigurou nos últimos dois dias. Madame dá a impressão de ser a Rainha de Sabá, enquanto o vice-presidente, só para não sair perdendo, parece o Rei Salomão. Ambos em desacordo com suas imagens conhecidas. Ela, feito um lutador antes caraterizado pela agressividade e, repente, mesmo sem evitar golpes fulminantes, procurando bater no adversário abaixo da linha da cintura. Ele dançando frente à adversária, tentando confundi-la com jogo pernas em vez de punhos.

Traduzindo: Dilma procura desmoralizar Michel com a acusação de que seu governo vai acabar com as iniciativas sociais. Michel denuncia de mentirinha que seu governo se voltará para os pobres, mas na realidade cuidará da classe média para cima. Em suma, a luta que fatalmente definirá os rumos do país neste ano e nos próximos dois, será iniciada domingo, ainda que não se possa concluir quantos dias irá demorar. E nem quem será o seu vencedor. A pergunta que se faz é sobre qual dos dois candidatos conquistará a maioria dos votos deputados, e, depois, dos senadores.

Aqui para nós, tanto faz, pois nada mais igual do que o Seis senão o Meia Duzia. Dilma e Temer podem prometer tudo o que quiserem, em matéria de novos planos, programas, roteiros e tudo o mais. Nada mais igual a um do que outro, porque nenhum fez o mínimo do que podia, até hoje. A informação é de que a Praça dos Três Poderes está desde ontem dividida em duas. De um lado, a turma da Dilma, do PT e do Lula, entre outros, prometendo a recuperação nacional, a volta ao pleno emprego, a felicidade geral e muito mais coisa. Apoiando Michel Temer, quer dizer, o PMDB, estão muitos outros grupos, o empresariado e a maior parte do Congresso. Hoje, é claro, amanhã será diferente. Domingo será diferente. A população hesita entre o muro que divide os dois grupos, mas não se nega a sustentar esta ou aquela posição. A chamada do-s deputados será feira por critérios geográficos e alfabéticos.

Mas se Dilma perder por pelo menos 342 votos, cederá para a entrada na Câmara da maioria dos deputados, para começar as decisões. Só que Michel não ocupará o Senado. Em suma, Dilma ficará morando no palácio da Alvorada. Michel, no palácio do Planalto, até que se esgote o tempo para que o Congresso decida. Numa palavra, o país continua dividido numa das mais ridículas situações dos últimos tempos.


Por via das dúvidas, melhor esperar amanhã. As indicações são de que a maioria dos deputados votará pelo impeachment da presidente Dilma. Certeza não há, mas as oposições contavam ontem com 349 votos, sete a mais do que o número necessário. As bancadas do governo fazem contas diferentes, esperam que apenas 308 se tenham comprometido com o afastamento de Madame.

O vento sopra no rumo dos adversários dos detetores do poder, mas o vento costuma mudar, não obstante as tendências.

A pergunta é sobre o que acontecerá neste domingo, entre o início da coleta de votos e o final da sessão, marcada para as 14 horas. Antes ou depois da meia noite, já na segunda-feira, lamentos e comemorações ocuparão Brasília e o resto do país. Vai quebrar o pau, seja de que lado for.

Não se supõe os manifestantes invadindo o palácio do Planalto, no caso, para expulsar a presidente da República. Ou sequer para carregá-la em triunfo, na outra hipótese. Ela mesmo terá tomado suas precauções, ou seja, buscado abrigo no palácio da Alvorada, residencia que ficará à sua disposição como moradia, enquanto durar o entrevero. Mesmo afastada da chefia do Executivo pelo máximo de 180 dias, ela aguardará o pronunciamento do Senado, a palavra final. Caraterizada a defenestração, sairá da História. Confirmada a permanência, precisará encontrar nova imagem para enfrentar a mais áspera de suas funções, de mudar o país de alto a baixo sob violenta rejeição.

O fenômeno que agora se desenvolve à vista de todos revela múltiplas faces. A primeiro, de que Madame não deu certo. Seus planos e programas de governo deram em nada na medida em que o desemprego multiplicou-se, as oportunidades minguaram, as fábricas fecharam, a atividade econômica escafedeu-se e os serviços públicos foram para o brejo. Há quem julgue exagerada essa visão e até faça parte de uma trama engendrada pelos economicamente poderosos para recuperarem seus privilégios. Afinal, certas iniciativas no campo social, estabelecidas pelo governo Lula, prejudicaram a vida das elites. Elas aproveitaram a oportunidade do fracasso na economia para tirar a forra. Claro que impulsionadas pela incompetência. Junte-se a isso a avalancha da corrupção, estimulada pelos que se imaginaram donos do poder, leia-se PT, Lula e penduricalhos.

Aí está o resultado: quase todos envolvidos nas facilidades de um sistema podre, de um lado, e outros em cobrar o tempo perdido. No meio, o cidadão comum. Será esse o que vai para as ruas, exigindo compensações? Pode ser que não, preparando-nos ainda para o pior...