3.4.16

ESTELIONATO, INFIDELIDADE E DESCARTÁVEIS

MOYZÉS LIMA -


Devemos respeito e reconhecimento aos personagens da nossa história, suas ações, seus feitos e glórias que não se podem apagar, mas isso não nos retira o direito a crítica, ao apontamento e a reflexão.

É estranho expor pensamentos e claridades, mas não é esquisito quando há patamares altos separando personagens, heróis e vilões. Curioso saber que é difícil falar com o outro, mas é bem fácil que as suas ideias 'contrárias' cheguem.

Vamos supor que a tarefa de 'ombudsman' tenha caído no meu colo, então, não fugirei dessa responsabilidade, e conto com a força que vocês me dão quando dizem: "-Estamos aqui". Então, vamos lá: O ESTELIONATO ELEITORAL é quando um candidato é eleito com um plataforma ideológica, e após as eleições adota um programa ideológico inverso, contrário ao que tinha proposto.

Desde 2004 tramita na Câmara o projeto de lei nº 3453 que busca tipificar o estelionato eleitoral como crime, o PL foca o estelionato em projetos de investimento, mas poderia ir bem mais além. Quantos já não acusaram a Presidenta de estelionato eleitoral, por exemplo, quando foram as circunstâncias e a criação de uma "crise" pelos barões da mídia, do agronegócio, das indústrias e oligarquias que engessaram e imobilizaram a governabilidade?

Às vezes o estelionato eleitoral se aplica onde menos se espera, mais próximo do que se imaginava. Quando um partido expulsa um "quadro" por infidelidade partidária e impede que o mesmo faça aparições públicas usando o nome do partido é pelo desrespeito as orientações políticas coletivas, que identificam/formam o partido e atraem/captam votos não só através do voto para a legenda, mas para o candidato atrelado.

O TSE recebeu questionamento recente se fatos como esse não caberiam a devolução do mandato. A questão é que se fomos enganados, lesados, iludidos, traídos, ludibriados, engabelados, tapeados... O que nos cabe fazer? Decisões coletivas democráticas e respeitosas dependem de organização, participação, debate, consideração e apreço não só ao indivíduo, mas ao todo (coletivo).

Na era das barganhas, do jogo político, das ofertas, até os que tem como premissa representar algo ou algum coletivo, não estão preocupados com as decisões de todos, muito menos com a excelência de uma organização que represente todos, afinal somos todos descartáveis. "Enquanto isso, as tribos e os povos rasgam a terra e dormem na mina, pescam nos espinhos do inverno, ...cravam pregos em seus ataúdes, edificam cidades que não habitam, semeiam o pão que amanhã não terão, disputam-se a fome e o perigo." (Neruda)