27.5.16

A CONSTRUÇÃO DO BANCO DOS BRICS FACE AO IMPERIALISMO FINANCEIRO

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


A diferença essencial entre imperialismo e o colonialismo é que, no primeiro caso, o poder supremo costuma ser exercido indiretamente através de elites locais subordinadas, enquanto no segundo caso o poder é exercido diretamente, através de prepostos. Esse conceito é útil para se saber o que está acontecendo com o Brasil. É que estamos sob o domínio do império americano, e muita gente sequer se apercebe disso. É o império americano que governa o núcleo de conexões políticas e econômicas que nos subordina.

É um desastre histórico de grande envergadura que doze anos de governos do PT, um partido que tanto fala em anti-imperialismo, não foram suficientes para nos desatrelar inteiramente do sistema imperial americano. Dadas as características de nossa sociedade, e em especial de nossas burguesias financeira e industrial, ambas em estreita relação com os correspondentes patrões norte-americanos, é ao Estado, e não à classe dominante que compete estabelecer e conduzir o projeto nacional. O PT tentou, mas ficou pela metade.

Em dois momentos procuramos construir uma alternativa ao completo domínio norte-americano da nossa economia: na resistência à ALCA, e na criação do grupo BRICS e no Banco dos BRICS. Infelizmente essas conquistas não se apresentam como definitivas. De fato, a nova configuração do domínio político no Brasil não é nada animadora nessa questão. E, do ponto de vista da ciência política, se houver algum recuo rumo ao nosso re-atrelamento ao imperialismo, encontrará respaldo em amplos setores das burguesias financeira e industrial.

É pelas conexões americanas com financistas e empresários locais que o imperialismo norte-americano atua, aqui como em toda parte do mundo. É muito confortável para um banqueiro brasileiro ter o respaldo, em suas atividades, de um similar americano, mesmo que isso represente algum ônus ou algum benefício partilhado. Da mesma forma um industrial local prefere o conforto de uma articulação tecnológica com um parceiro ocidental do que desenvolver, ele próprio, uma nova tecnologia, mesmo que isso o tornasse independente.

Contudo, o eixo central do processo de dominação imperialista é, quase sempre, o sistema financeiro. É pelo dinheiro que se estabelecem as relações industriais e comerciais, já que todos os empresários, em um ou outro momento, recorrem a crédito para investimento ou despesas correntes. A vitória na concorrência está estreitamente vinculada ao acesso ao crédito. Em face das taxas de juros pornográficas que prevalecem no Brasil, é o acesso a crédito externo, através de um banco nacional, que define o sucesso de muitos empreendimentos em termos econômicos.
O sistema bancário anglo-americano, com sede em Nova Iorque, domina os subsistemas bancários em outros países desenvolvidos e, naturalmente, nos países subdesenvolvidos, os quais, se bem comportados, gozam de privilégios subalternos que lhe são garantidos por conexões com o centro. Esse emaranhado de relações, regulado por uma instituição privada denominada Banco de Compensações Internacionais, no fundo é um meio de destruir a soberania monetária e financeira dos países, exceto a dos Estados Unidos.

Ao lado do sistema privado foi constituído, no pós-guerra, o sistema das agências multilaterais que deveriam ajudar no processo de reconstrução dos países atingidos pelo conflito. Também elas, porém, são dominadas pelo império, diretamente (Banco Mundial/EUA) ou por aliados (FMI/França). Na prática, as duas instituições funcionam como instrumentos de imposição das políticas econômicas aos países em desenvolvimento, sobretudo, nas últimas quatro décadas, das políticas neoliberais – embora os EUA não pratiquem, eles próprios, políticas neoliberais, exportando-as e adotando internamente políticas keynesianas.

É no meio desse emaranhado de controle financeiro americano, anteriormente predominante em todo o mundo, que nasceu nos países do sul o Banco dos BRICS. Tornou-se, para nós, uma alternativa ainda não plenamente implementada ao sistema bancário ocidental. Este já não tem nada a nos oferecer, exceto especulação financeira. Contudo, o império não se sente confortável com esse núcleo financeiro onde se destaca a economia com o maior volume de reservas do mundo, ou seja, a China. Compor o Banco dos BRICS constitui um dos maiores desafios geopolíticos ao império. Seria um crime de lesa-pátria o Brasil recuar dele.

*Economista, professor, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ.