22.5.16

ARTISTAS ESTÃO DANDO A TEMER OPORTUNIDADE DE OS COMPRAR

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


Bertolt Brecht, o grande teatrólogo alemão, deve ter-se revirado no túmulo ao ser informado do show que um grupo de artistas promoveu no Rio, na última quinta-feira, pela recriação do Ministério da Cultura. “Serão eles os analfabetos políticos aos quais me referi?”, teria dito ele. O movimento desses artistas mostra o quão longe estão eles da realidade brasileira e quão perto estão de seus próprios interesses corporativos. É que o Minc tem sido uma central de distribuição de patrocínios para eventos de classe média mais do que um eixo de promoção de cultura popular.

O caráter absolutamente corporativista desse movimento, que não se restringiu ao Rio, transparece na própria ignorância do funcionamento de ministério. Seus promotores acham que, se tivessem perdido o status de ministério, perderiam as verbas e os patrocínios. Ledo engano. O que importa não é ser ministério ou não, mas ter verba aprovada no orçamento anual da União. Isso pode acontecer num caso ou noutro. Uma secretaria bem provida de verbas poderia ser muito mais eficaz para os patrocínios do que o ministério. A questão central chama-se: ajuste fiscal!

Na medida em que Meirelles imponha ao país, conforme anunciado, a segunda rodada de ajuste fiscal depois da de Joaquim Levy/Nélson Barbosa, os recursos para a Cultura inexoravelmente vão minguar junto com as verbas para todos os outros ministérios. Nesse caso, será necessária uma série infinita de shows, agora pagos, de Caetano e Erasmo, se quiserem dar uma contribuição espontânea para levantar as finanças do ministério recriado. Sua compensação é se verem no mesmo barco com 11 milhões de desempregados e uma contração de 8% do PIB em dois anos.

O que mais me desapontou nesse movimento de artistas – no qual não vi, para minha satisfação, meu grande ídolo Chico Buarque – é a tremenda ingenuidade deles justamente no terreno cultural. Como eles vão fazer um movimento político de interesse restrito, manipulando milhares de pessoas, no meio de um processo de impeachment presidencial, no meio de uma crise geral do Estado, no meio do derretimento geral das instituições republicanas - se ninguém sabe, em sã consciência, aonde vai parar a Nação em todo esse processo. O movimento pela recriação do Minc não seria uma tergiversação?

Para Temer, essa foi uma oportunidade única de “comprar” uma parte da categoria dos artistas sem muito custo. Ele sabe bem que isso de aumentar ou diminuir um ministério na Esplanada não significa nada em termos de redução de custos públicos. Todo o bestialógico do PSDB e do DEM a propósito da necessária redução de ministérios para “enxugar” gastos não passa de uma tontería. Recriar um ministério de custos marginais, como o da Cultura, sob as asas desinteressadas e muito generosas da TV Globo, certamente vale o requisitado apoio dos artistas ao golpe em andamento. Paris bem vale uma missa!

*Economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ.