24.5.16

JUCÁ, O TÍPICO POLÍTICO BRASILEIRO

IGOR MENDES -


O mestre Graciliano Ramos, em nota genial, referia-se assim aos políticos da nossa terra:

O amor a um poder, na verdade bem precário, faz com que essas criaturas se resignem a tomar diariamente um banho de lama. Verdades e calúnias confundem-se. Hoje em cima, embaixo amanhã, preso a interesses inconfessáveis, obrigado a mendigar o voto, alargando-se em promessas num instante esquecidas, o homem público é um ser mesquinho. Habituamo-nos a julga-lo trapaceiro e venal; as suas palavras em tempo de eleição, ocas e abundantes, são para nós desgraçadamente mentirasi.

A confusão entre verdades e calúnias; os diários banhos de lama; hoje em cima, amanhã embaixo, sempre servindo a interesses inconfessáveis; as mentiras abundantes. O autor, que descreveu como ninguém o profundo Brasil sertanejo, patriarcal, não soa hoje tão atual como há sessenta anos?

Jucá – O Governista

Não só pelo bigode, Romero Jucá parece um personagem saído diretamente daquela República Velha retratada pelos livros de história (na verdade, jamais superada). Sobre sua trajetória, lemos no jornal Estado de Minas:

O pernambucano Romero Jucá (PMDB), de 61 anos, passou os últimos 35 anos de sua vida mantendo ótimas relações com os principais nomes do poder em Brasília. Desde 1985, quando José Sarney (PMDB) assumiu a Presidência da República, com a morte de Tancredo Neves, o político passou pelos partidos PSDB, PDS, PFL, PPR e PMDB, e sempre manteve relação próximas com os chefes do Executivo. Assumiu cargos comissionados nos governos Sarney e Fernando Collor, foi líder de governo nas gestões dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente afastada Dilma Rousseff (...). Em 1986, filiado ao PSDB, ele foi nomeado pelo então presidente José Sarney (PMDB) presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai). Dois anos depois, aos 34 anos, Sarney o indicou para governador do recém-criado estado de Roraima (...). Em 1992, foi nomeado por Fernando Collor para a Companhia Brasileira de Abastecimento (Conab), ligada ao ministério da Agricultura, onde ficou até 1994, quando foi eleito senador pelo PPR. Logo no início do governo FHC, Jucá foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) em processo por corrupção, formação de quadrilha e peculato, que teriam sido praticados durante sua passagem pela Funai(...).Logo que o PSDB deixou o Planalto Jucá se mudou para o PMDB, em 2003, e passou a articular o apoio da legenda ao governo Lula. Em 2005 assumiu o ministério da Previdência do governo petista, mas foi exonerado após denúncias de corrupção, e voltou para o Congresso, onde liderou a bancada governista. Jucá manteve a liderança do governo até 2012, ficando por dois anos como líder do governo Dilma no Senado. Desde então, passou a criticar a falta de diálogo de Dilma com lideranças parlamentares e articulou a queda da petistaii.

Jucá serviu sob todos os governos desde o fim do regime militar, sempre defendendo interesses lesivos à Nação e ao povo. Nesse sentido, apelida-lo de “O Breve” é uma injustiça: ele está aí há muito tempo e, ao que parece, continuará. “O Governista” parece ser epíteto mais condizente com os fatos. Jucá não é uma exceção: é o típico politico brasileiro, a expressão necessária dessa republiqueta de grandes burgueses e latifundiários, serviçais do imperialismo, que temos entre nós, a despeito de tudo quanto têm dito os ideólogos da velha ordem sobre um suposto “amadurecimento das instituições”.

O mais relevante desse quadro é que crescentes parcelas do povo brasileiro, tendo acesso às entranhas do que se discute e como se opera nas altas esferas da politicalha oficial, estão cada vez mais vacinadas contra as promessas moralizadoras vindas de supostos salvadores da Pátria – como esse minúsculo Michel Temer, outra figura sinistra, que impõe um governo de descarada traição nacional. Resta dizer, como tenho repetido insistentemente aqui, que a corrupção é o cafezinho, o mal menor diante dos grandes achaques que se cometem contra nosso povo por vias legais, como os cortes nos orçamentos dos serviços públicos, o roubo e privatização da Previdência, a retirada de direitos trabalhistas, a infame taxa de juros que faz os bancos acumularem sucessivos lucros recordes, incremento da legislação repressiva, etc., etc. Falar em combate à corrupção e em “democracia” num País que tem, simultaneamente, uma das maiores concentrações de renda e de terras do mundo, que superencarcera a juventude e é campeão de homicídios, será ingenuidade ou a mais crassa hipocrisia, sempre com consequências funestas.

Para pôr fim a esse quadro não basta trocar um grupo de bandidos por outro, ou resignar-se a escolher o “menos pior”. É hora de sermos radicais, literalmente: sem ir à raiz, todo palavrório será em vão.

i Graciliano Ramos, “Viagem”, 1954.
ii Link em: http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2016/05/23/interna_politica,765418/de-sarney-a-dilma-historia-de-romero-juca-acumula-cargos-e-escandalos.shtml