29.5.16

O DIA SEGUINTE MELHOR DO QUE A VÉSPERA?

CARLOS CHAGAS -

À medida em que vão sendo revelados os sucessivos episódios da roubalheira verificada em entidades do governo e da iniciativa privada, à sombra da Operação Lava Jato e sucedâneos, com a exposição de políticos e empresários variados, a conclusão é de que dos relacionados não deveria sobra nenhum, ou sobrarão muito poucos. Pelos cálculos feitos até agora pelo Ministério Público, a Polícia Federal e a Justiça, já são mais de duzentos os bandidos, estes reconhecendo a própria culpa, aqueles emergindo das  investigações e processos mais ou menos avançados. Alguns comprovadamente envolvidos, condenados ou em vias de tanto. Estes já postos na cadeia, outros a caminho.

A vergonha atinge o país inteiro. Não escapam nomes ilustres.

A pergunta que se faz é sobre quantos escaparão. Porque tentando, todos estão, apelando para as delações premiadas, as amizades de sempre, as chicanas e os advogados abertos ao faturamento variado.

Jamais a corrupção alcançou níveis tão altos. Pelo menos, a impunidade começa a ser atingida e denunciada. Indaga-se a respeito de sua extensão. Muitos vão saltar de banda. Mesmo assim, parte dos corruptos vem sendo arcabuzada, evidência de que o Brasil progride.

Não haverá, portanto, que desistir. Preferível parece imaginar o dia seguinte melhor do que a véspera.

Para Dilma Rousseff, seria preferível a hora do silêncio

Divulgada ontem, a entrevista de  Dilma Rousseff  concedida à “Folha de S. Paulo” na quarta-feira da semana passada deixou claro que Madame não vai bem. De ex-presidentes, ou quase isso, só Jânio Quadros deu tantas provas de desequilíbrio. Ela declarou que “o partido de Temer  pretendia, ao assumir o governo, barrar a Operação Lava Jato”.  Mais ainda: que Romero Jucá  tentou  delimitar as investigações. Incluiu Renan Calheiros na trama, esquecendo-se que 367 deputados e 55 senadores votaram as preliminares de seu impeachment. Negou haver cometido crime de responsabilidade e prometeu  retornar  ao poder,  porque vários senadores que votaram pela seu afastamento apenas admitiram a admissibilidade da iniciativa.

Estaria a já quase ex-presidenta dissociada de suas faculdades?  Primeiro,  por haver desaprendido as quatro operações; depois, por  não saber chorar, como se vangloria. Melhor teria feito se ficasse restrita às suas bicicletas, poupando críticas e diatribes  ao Congresso e aos políticos dos quais se tornou desafeto. Em especial Michel Temer, que age no sentido oposto. Até agora  não acusou  a antecessora por traição.

Aguarda-se a defesa de Madame, em elaboração pelo seu antigo ministro da Justiça. Caso  insista na tese de haver sido apunhalada pelas costas, arrisca-se até  a perder  mais senadores, no confronto final. É precisamente o que deseja o novo governo.  Fica evidente que mais entrevistas  significarão menos chances de retornar. Quase nulas. A hora, para a presidente afastada, seria de silêncio ostensivo.  Entrevistas, só com senadores propensos a mudar de voto. Dois ou três bastariam…