25.6.16

A ABERTURA DA CHINA A RELAÇÕES ESTRATÉGICAS COM O BRASIL

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


Volto de uma viagem de dez dias à China, e não há como evitar a comparação com a situação econômica dos dois países. Entretanto, isso pode ser sabido antes de ir à China. O que mais me impressionou não foi a diferença física, mas a diferença de alma: os chineses transmitem um inequívoco sentimento de realização em todos os campos, reconhecendo insuficiências ainda existentes – no campo social, por exemplo -, mas revelando a certeza de que podem resolvê-las e que os resolverão em prazo relativamente curto.

O fato relevante é que a China, dirigida por um Partido Comunista pragmático, sabe para onde quer ir. Nós não sabemos. Não temos projeto nacional. Não temos planejamento estratégico. Comemos da mão para a boca, ao sabor de crises intermitentes. De todo o noticiário que li, recolhi um que atesta as nossas diferenças: o premier Li Keqiang anunciou um forte suporte bancário e financeiro à economia real que cresce a 6,5% ao ano, no mesmo momento em que o novo presidente do BC, Ilan Goldjan, anunciava mais restrição financeira (tripé) à economia brasileira em plena contração de 8% em dois anos!

Estive em Beijing, Shangai, Xian e Yan An. Em todos os lugares, invariavelmente, era imensa a curiosidade sobre a presente crise brasileira. Ninguém, entre os chineses, entendia nada. E o esforço dos três brasileiros presentes em explicá-la caía no vácuo de nossas próprias dificuldades em transmitir o que nós não tínhamos facilidade em compreender mesmo no Brasil, como o fato de uma presidenta sofrer impeachment sem exata caracterização de crime de responsabilidade. Imagine como explicar, para chineses, a corrupção na Petrobrás, o afastamento do presidente da Câmara, as prisões da Lava Jato!

De qualquer forma, a preocupação com o Brasil é genuína. Os chineses querem e se esforçam por estabelecer uma parceria estratégia com o país em todos os campos do desenvolvimento, de forma pragmática, acima de ideologias. Não se trata de comércio apenas, mas de integração econômica e, sobretudo, de integração logística. É algo que não nos oferece qualquer outra parte do mundo, sobretudo o bloco anglo-americano, dedicado quase exclusivamente à exploração financeira e à especulação privada, muito longe da integração física.

Quando esteve no Brasil, o premiê Li anunciou os quatro princípios que passaram a regular as relações externas e de cooperação chinesas: organização empresarial, manejo comercial, participação social e promoção governamental. Nos dois discursos que fez, em Brasília e no Rio, mencionou mais de dez vezes, em cada um, a palavra cooperação. Qualquer um com um mínimo de afinidade com o pensamento chinês sabe o valor que ele dá às palavras. É fácil perceber que os chineses estão atrás de alianças estratégicas, e não uma nova forma de imperialismo.

O instrumento para operar a cooperação chinesa é o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS. É um crime de lesa-pátria, para não dizer de extremo entreguismo ao sistema financeiro especulativo ocidental, não explorá-lo no limite de nossas necessidades financeiras, sobretudo em infraestrutura. Por isso a sociedade brasileira deve “vigiar e orar”, para que, aproveitando um interinato ilegítimo, os americanófilos de plantão não comprometam a possibilidade de fortes relações estratégicas com o Banco dos BRICS e com a China.

*Economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de livros sobre a economia política brasileira.