6.6.16

AS DUAS ESQUERDAS

SEBASTIÃO NERY -

Francisco Clementino de San Tiago Dantas, Leonel Brizola e João Goulart.
Naquela noite de 1963, já quase 1964, Santiago Dantas jogou sua ultima cartada. Doente, muito pálido, falando com dificuldade, comido por um câncer atroz, já arrumando as gavetas da vida com a violência de sua luminosa lucidez, convidou deputados, líderes sindicais, dirigentes estudantis e, sobretudo, o comando da Frente de Mobilização Popular de Brizola, para uma conversa em sua casa da rua Dona Mariana, no Rio de Janeiro, cercado de arvores e livros. Tentou um último esforço para salvar o barco da República, que adernava, escorregando o governo de João Goulart para o naufrágio.
Santiago imaginou, elaborou, articulou, coordenou uma Frente Ampla (a de Lacerda, em 1966, foi a segunda; o nome é direito autoral de Santiago) que conseguisse reunir do PSD ao Partido Comunista, passando pelo PTB e pelo PSB, todas as forças naquele momento comprometidas com a defesa da democracia, para evitar que a radicalização do processo político acabasse levando, como levou, o País ao impasse do golpe militar.
Foi impossível um entendimento. A esquerda (o PTB, o Partido Socialista, o Partido Comunista e outras forças reunidas na Frente de Mobilização Popular de Brizola) já havia dado um salto para a radicalização do processo, denunciando “a política de conciliação de João Goulart” e a “aliança com o PSD”, que Santiago considerava o lastro do pacto político e social do País.
Depois de horas de debates, Santiago, exausto, visivelmente desencantado, tirou o lenço do bolso, limpou longamente os óculos, pôs a mão no ombro do deputado Mário Lima, presidente do Sindicato dos Petroleiros da Bahia, um dos poucos que ali aceitavam a proposta de Santiago, e suspirou:
– Tenho a impressão de que o resto desta discussão será da cadeia.
Foi. Sem ele, que logo depois morreria, mas com todos nós presos.
SANTIAGO
No Governo de João Goulart, Celso Furtado formulou o Plano Trienal com disciplina na política econômica e forte ajuste fiscal. Foi combatido e boicotado por uma parte da esquerda no governo. Santiago apoiou Celso dizendo que no Brasil havia duas esquerdas, a positiva e a negativa. Não teve tempo de dizer mas a negativa ajudou a derrubar Jango.
Santiago, que já nasceu sábio, fazia parte do “Grupo de Itatiaia”, com Augusto Schmidt, Jorge Serpa, Antonio Balbino, Chagas Freitas, Antonio Galotti, Gerardo Mello Mourão, filósofos, poetas, juristas que se especializaram em variadas sabedorias. Na Faculdade Nacional de Direito, onde a maioria estudou, Santiago disse a Balbino:
– Sou cristão. Como cristão, devo ser modesto. Só peço a Deus que me dê três coisas: cultura, dinheiro e poder.
Quando já tinha cultura e dinheiro, Santiago foi a João Goulart:
– Presidente, quero entrar no PTB porque não sou burro.
– Mas o senhor não é o grande advogado das empresas estrangeiras? A linha do PTB é nacionalista, professor.
– Presidente, se o senhor me der sua licença e me ajudar, eu mudo.
A partir daquele dia, Santiago foi conselheiro de Jango.
Santiago candidatou-se a deputado federal por Minas, em 1958. Jango pediu a Doutel de Andrade e Raul Ryff que fossem lá “ajudar o professor na campanha”. Chegaram a uma cidade do interior, foram almoçar com um velho magrinho, muito calado, desconfiado, chefe político do PTB local. Santiago, como sempre fazia, começou a falar aplicadamente sobre a história da cidade, seus fundadores, sua economia. Sabia tudo. Não entrava num município sem se preparar convenientemente. Encantou a todos: prefeito, vereadores. E o velho magrinho, calado, desconfiado, na cabeceira da mesa. Quando se fez silêncio, o velhinho levantou a voz:
– Quer dizer, professor, que o senhor quer ganhar só no “boquejo”?
O professor não queria. Abriu a pasta, fez um cheque, teve os votos.
Santiago estava na Polônia, recebendo o título de doutor “Honoris Causa” da multissecular Universidade de Cracóvia. Na solenidade, deu-se conta de que não preparara por escrito o discurso de agradecimento.
Mas era preciso não ser indelicado. Chamou o embaixador Marcílio Marques Moreira, seu assessor, pediu-lhe algumas folhas em branco, levantou-se com elas nas mãos e, fitando-as com firmeza, pronunciou longo discurso em francês, como se estivesse lendo. Só Marcílio sabia.
PT
1- O professor Marcelo Medeiros, da Universidade de Brasília e os pesquisadores Pedro Ferreira e Fábio de Castro, do Ipea, constatam que não houve queda na desigualdade da renda do Brasil (como dizem Lula e o PT): os 5% mais ricos em 2006 tinham 40% da renda total. Em 2012 já era 44%.
2- Os encargos e juros da dívida pública pagam, em um ano, o equivalente a 15 anos do “Bolsa Família”.Na outra ponta de apropriação de renda, a “Bolsa Empresário” foi ativa integrante da agenda daqueles governos. E não ficou apenas no BNDES, mas se estendeu a subsídios, desonerações e regimes diferenciados para setores privilegiados.