17.6.16

CACHIMBO DA PAZ

ANDRÉ BARROS -

Índio quer cachimbo, índio quer fazer fumaça? Não é bem assim! A história mostra que o hábito de fumar maconha não tem origem nos povos indígenas do Brasil – e sim dos negros trazidos da África para o trabalho escravo em terras tupiniquins. Nosso colaborador, advogado e ativista, usa a curiosidade como mote para denunciar os atos feitos contra este povo e contra as terras que eles protegem até hoje de quem quer desmatá-la. Entenda mais sobre a questão.


Muitas pessoas acham que o hábito de fumar maconha é originário dos índios brasileiros. Mas, na realidade, a cultura de fumar maconha foi trazida pelos negros degredados da África e escravizados no Brasil. A maconha para fazer cordas e velas para as caravelas, por sua vez, foi incentivada por Portugal através de Decretos de reis.

Índios brasileiros gostaram do hábito de fumar maconha e aderiram à cultura dos negros escravizados, ao que tudo indica, desde a chegada da erva. Como foi um hábito dos povos submetidos à escravidão e à miséria, a erva da paz foi apelidada pelos eugenistas de “ópio dos pobres”. Já os brancos de classes privilegiadas só aderiram à maconha com o movimento hippie da contracultura dos anos 60 do século XX.

Mas o que ficou no imaginário é que do cachimbo da paz e a expressão de rolar a erva, como forma de pacificar uma controvérsia, são atribuídos aos índios. O que interessa é que os povos indígenas são aliados da causa da legalização e do reconhecimento histórico do hábito de fumar maconha como cultura dos negros e índios brasileiros.

Fiz este introito para deixar minha indignação com o assassinato do indígena e agente da saúde, Clodiolo Aguileu Rodriguês de Souza, e o ferimento de seis Guarani-Kaiowás. Cerca de mil índios estavam reunidos próximos à aldeia Te’ Ýikuê, na região de Caarapó, quando foram surpreendidos por cerca de 70 fazendeiros e jagunços a bordo de 60 caminhonetes, que chegaram atirando. Muitos índios estão desaparecidos.

Os povos indígenas lutam pelos seus direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam. São os nativos brasileiros que protegem as nossas florestas com a relação de convívio, ao invés de destruição da natureza. Os ruralistas acusam os índios de terem grandes áreas. Exatamente pelo tamanho dessas áreas que elas têm grande importância. E são defendidas pelos índios para o bem de nossas riquezas naturais, que tanto interessam ao Brasil e à Terra.

Uma das principais conquistas para a defesa de nossas florestas está no artigo 231 da Constituição Federal. A Carta Política do Brasil estabelece que é da União a competência para a demarcação das terras indígenas. Esse atual governo interino e golpista volta a articular a Proposta de Emenda Constitucional nº 215/2000 para que as terras indígenas sejam demarcadas por esse Congresso Nacional. Se esses golpistas conseguirem o impeachment de Dilma Roussef, nossas florestas serão destruídas pela forte bancada ruralista, que vai transferir a demarcação das terras indígenas da União para esse vergonhoso Congresso Nacional.

A luta contra esse golpe é fundamental para a defesa dos índios que protegem nossa natureza. Esta vitória será comemorada com rodas de cachimbos da paz pelo Brasil.