19.6.16

POETAS E POESIAS: MISSÃO DO POETA; MÁSCARA DE TRISTEZA

MARCELO MARIO DE MELO -

MISSÃO DO POETA

Não pretendo provar nada

ser provado ou aprovado
somente jogar pra fora
o que em mim foi jogado.


Recolho no ar a luz
navego no assobio
mergulho na pulsação
aspiro a flor no cio.

Vou vestido numa túnica
uma antiarmadura
que me deixa transparente
criador e criatura.

E assim transparecendo
ando em nuvens de poesia
vou levando e sou levado
num jogo de alegria.

Ao fim de cada jornada
letras acesas na mão
eu começo a relatar
toda essa voação.

Depois chego na janela
jogo o poema na rua
querendo tirar a roupa
da minha mente e da sua.

Porque poesia se veste
da nudez incandescida
ou então em uma roupa
por ela mesma tecida.

Assim se cumpre na vida
do poeta a obrigação
que é repartir com todos
sua poesia seu pão.

Sendo poeta-padeiro
distribuo meu pão na praça
sabor/dissabor da vida
dó-ré-mi graça/desgraça.

Desgraça que na poesia
também se veste a rigor
pois em palavras de seda
é que se costura a dor.

Eis a missão do poeta
o seu destino na vida
sua trilha seu tempero
sua luz sua ferida:

beber poesia na fonte
dar um toque de beleza
retirar o pão do forno
e chamar todos pra mesa.


***

MÁSCARA DE TRISTEZA 

Jovem mulher
com ar sofrido
fileira de filhos
contas a pagar
& rastros
de homem-vampiro.

Que cargas 
encurvaram seus ombros?

Que nuvens 
embaçaram seus olhos?

Que travas 
crisparam seus lábios?

Que vermes 
sorveram seu viço?

Que teias 
fizeram dessa mulher 
uma sombra?