4.6.16

POR SER UM “FOMINHA” TEMER DEIXOU A “BUNDA DE FORA”

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


No meu tempo de criança o menino que atropelava os outros na busca de uma vantagem, tentando ser o primeiro nas brincadeiras ou na mesa - e pisando até o pescoço da mãe para ganhar algum benefício, como diria Leonel Brizola -, era chamado de “fominha”. Por ser um legítimo fominha, Temer pode acabar perdendo a Presidência que usurpou. Apressado demais em exercê-la, mudando ministério e tomando medidas emergenciais absolutamente ineptas, ele deixa a “bunda de fora”, como também diziam os meninos de meu tempo.

Desculpem-me a terminologia grosseira, mas diante da precipitação do usurpador em impor sua agenda regressiva não é fácil encontrar qualificativos para descrevê-la. Não apenas Temer, mas todos os seus “ministros” nomeados revelam uma pressa inacreditável em anunciar e propor “reformas”. Questões que estão sendo discutidas há meses e até anos, devido a sua complexidade, são trazidas à mesa de decisão para serem resolvidas em dias. É como saquear o país o mais rápido possível antes do risco de uma eleição.

É extraordinário, por exemplo, que um tecnocrata resgatado de um governo tucano, de onde saiu por suspeita de corrupção, seja imposto à Presidência da Petrobrás e logo em sua primeira entrevista propõe a mudança do regime de exploração do pré-sal, de partilha para concessão, algo que está sendo longamente debatido no Congresso e na sociedade ainda sem definição clara. Que autoridade institucional ou moral tem o senhor Pedro Parente para tratar a Petrobrás como um brinquedo a ser sucateado o mais rápido possível?

Entretanto, em nenhuma outra situação como na política econômica se observa melhor a “bunda de fora” do que no comando da economia. O ajuste fiscal que está sendo “prometido” por Henrique Meirelles, convergindo com a política de escassez de crédito e juros altos do Banco Central do Itaú, é o anúncio escrachado do aprofundamento da contração da economia brasileira e do aumento sem precedentes do desemprego. Não é preciso fazer contas. Basta observar Espanha e Grécia. É para lá que estamos indo.

Se tivesse sido menos fominha, e portanto não quisesse ocupar todo o Governo antes do pronunciamento do Senado sobre o impeachment – o que, por si, é uma afronta aos senadores, a quem cabe a decisão -, Temer teria a vantagem de nossa ignorância sobre o que iria fazer. Precipitado, permitiu que, num curtíssimo espaço de tempo, verificássemos a que veio. Ou, mais uma vez, “deixou a bunda de fora”. Claro que grande parte de sua pressa se deve à necessidade de comprar apoios políticos no Congresso. Entretanto, são cerca de 600 parlamentares. Não dá para comprar todo mundo, nem juntando cargos lucrativos do Governo com o caixa da Fiesp.

*Economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ.