12.6.16

“VEJA” USA PEDOFILIA PARA ATACAR IGREJA CATÓLICA

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


A capa da “Veja” desta semana é uma infâmia. A partir de um episódio isolado em Goiás, tenta destruir o conceito público de uma das poucas instituições do país que ainda resistem ao derretimento geral de suas congêneres na República. O ataque à Igreja católica, revestido de jornalismo independente, não é diferente do que essa revista tem feito no comando de uma campanha de degradação do Estado nacional, e que agora dá um passo ainda mais agressivo, ou seja, avançando para destruir os valores básicos da própria sociedade.

Só a absoluta má fé poderia dar suporte à ideia de que, numa sociedade de mais de 200 milhões, uma instituição isolada não teria no seio dela homossexuais ou mesmo pedófilos. São pessoas sujeitas a fraquezas ou, no caso de homossexuais, seguindo uma tendência hoje amplamente aceita pela sociedade. A questão da pedofilia é mais complexa, porque envolve seres vulneráveis. Assim mesmo, o problema, na Igreja, não é que existam – não há como evitar que existam -, mas como são tratados pela hierarquia eclesiástica.

O Papa Francisco adotou uma iniciativa extremamente corajosa ao abrir a possibilidade de punição de bispos que toleram a pedofilia. Poderia ter sido omisso, mas assumiu riscos. Isso deveria suscitar a admiração de todo o mundo, não só dos católicos. Exceto, porém, “Veja”: na semana em que o Papa dá esse passo ousado, a revista escancara na sua primeira página a “pedofilia na Igreja”, como se essa fosse a prática comum em todas as dioceses brasileiras. Exemplo dessa “degeneração”? Um caso em Goiás.

Esse episódio midiático serve como pedagogia para o tipo de agressão que a sociedade brasileira está enfrentando com sua chamada “grande mídia”. O problema não é que há irregularidades, ou “pecados”, nas instituições republicanas, mas que só a irregularidade e só o “pecado” são destacados com fins políticos. Escrevi aqui várias vezes que se a Lava Jato tivesse sido conduzida de uma forma discreta, sem vaidade, suas consequências para a economia e para a sociedade, em forma de contração do PIB e de desemprego, poderiam ter sido muito menos destrutivas, e sem prejudicar a punição dos culpados.

Entretanto, a combinação de mídia, promotoria, polícia federal, juiz de instrução, todos movidos pela vaidade – ou por interesses alienígenas, conforme já se está provando -, e todos articulados na mesma direção, fez de casos isolados a marca do país inteiro, como se aqui só houvesse corruptos no Executivo, no Legislativo e no próprio Judiciário. O que sobra disso tudo? Um historiador que citei aqui há poucos dias fez uma metáfora: cortaram os anéis, mas será que sobrarão dedos?

Esse ataque à Igreja é uma prova adicional de que “Veja” não tem escrúpulos. Ela lança sobre o conjunto da Igreja católica, na sua forma mesquinha de ver o mundo, a fama de que a maioria dos padres e bispos são pedófilos, ou tolerantes com a pedofilia. Talvez isso sirva aos bispos como uma pedagogia imediata sobre o que é a grade imprensa brasileira. Até aqui, eles assistiam o festival de denúncias exageradas da imprensa como fenômeno normal. Daqui em diante, é possível que sejam menos tolerantes com a chamada grande imprensa, conforme Francisco foi com a pedofilia!

*Economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ.