15.7.16

BARBA, CABELO, BIGODE E MACONHA

ANDRÉ BARROS -

Que a Ditadura Militar deixou sequelas até mesmo para os maconheiros, você já sabe. Mas o filme “Barba, Cabelo e Bigode”, de Lúcio Branco, traz ainda mais embasamento sobre a relação dos anos de regime militar no Brasil em temas como futebol, música, liberdades e, claro, a maconha.


[art] No 57º dia do Ocupa MINC RJ, 11 de julho de 2016, tive a honra de participar, ao lado do magnífico artista do futebol e médico, Dr. Afonsinho, de um debate sobre o premiado e sensacional filme de Lúcio Branco: Barba, Cabelo e Bigode.

Sempre rolando a bola, o politizado filme conseguiu mostrar de forma material e imaterial a desgraça que representou a ditadura militar para a História do Brasil, assim como os prejuízos que ditadores, fascistas, opressores e intolerantes causaram ao futebol, à música, à liberdade, à maconha e à nossa riquíssima diversidade libertária.

O filme retrata a vida de três fabulosos craques do futebol brasileiro, surgidos nos anos sessenta, no glorioso Botafogo de Futebol e Regatas. Para se ter uma idéia, Afonsinho era o substituto de Gérson, Ney seria o de Ademir da Guia, em negociação que não se concretizou no Palmeiras, e Paulo César Caju foi campeão carioca em 1967, fazendo três gols na final com apenas 17 anos de idade.

Os três foram perseguidos porque não eram jogadores alienados e tinham personalidade forte. Paulo César foi vítima de racismo pelo seu cabelo, roupa e engajamento no movimento “Black Power”. Chegou a rolar umas bolas no campo de Chico Buarque com Bob Marley. Tri-Campeão do Mundo em 1970, foi barrado da seleção brasileira em 1978 por racismo e por ter xingado um militar da Confederação Brasileira de Desportos – CBD. Afonsinho, no período mais duro da ditadura militar, em 1970, recusou-se a tirar a barba, que representava os revolucionários de Cuba. Foi barrado e proibido de treinar por apoiadores do regime, que já tomavam o Botafogo. Foi o primeiro jogador “alforriado” no futebol brasileiro a ganhar o passe livre em longa batalha judicial. Afonsinho foi uma espécie de Muhammad Ali do esporte brasileiro. Ney Conceição gostava mesmo de curtir o “Cantinho da Vovó” em Jacarepaguá, onde viviam coletivamente os Novos Baianos, em pleno regime militar, fumando maconha, fazendo música e jogando bola. Era conhecido pelo sua fabulosa matada e domínio de bola. Chegou a ser convocado para a seleção brasileira de 1970, mas foi cortado por Zagallo. Foi para o CSA de Alagoas e terminou sua carreira em 1975 sem ganhar dinheiro no futebol.

O filme é uma demonstração da tragédia que foi a ditadura militar à maravilhosa juventude dos anos 60. Um regime que perseguiu, cassou, torturou, matou e desapareceu com grande parte da sensacional geração, que fazia pulsar o Centro Popular de Cultura da UNE, buscando o engajamento político dos artistas e livrar as pessoas de sua própria alienação com liberdade, música, teatro, cinema e muita política. Assista o trailer AQUI.

Mas, já que a galera gosta de Bota Fogo mesmo, termino explicando que o Botafogo foi uma das maiores vítimas da ditadura. Campeão em 1968, o time da estrela solitária só voltou a ser campeão em 1989, quando o Brasil voltou a escolher um Presidente da República com o voto direto. O Botafogo chegou a ter na presidência um direto apoiador da ditadura, Charles Borer. Ele era irmão do chefe do Departamento de Ordem Política e Social – DOPS, Cecil Borer, onde jovens eram torturados, assassinados e desaparecidos. Na presidência de Charles Borer, o Botafogo perdeu sua sede histórica, hoje recuperada, de General Severiano, em negociação realizada com a então poderosa estatal Vale do Rio Doce.