12.7.16

DILMA E A COMISSÃO DA MENTIRA

Por MINO CARTA - Via CartaCapital -


Destaco dois trechos da carta dirigida à Comissão Especial de Impeachment pela presidenta afastada Dilma Rousseff, lida na sessão de 6 de julho por seu advogado, José Eduardo Cardozo.

“Já sofri a dor indizível da tortura, já passei pela dor aflitiva da doença e hoje sofro a dor igualmente inominável da injustiça.”

“Na minha vida, os que me conhecem sabem que incorri provavelmente em erros e equívocos, de natureza pessoal e política. Errar, por óbvio, é uma decorrência inafastável da vida de qualquer ser humano. Todavia, dentre esses erros, posso afirmar em alto e bom som, jamais se encontrarão na minha trajetória de vida a desonestidade, a covardia ou a traição. Jamais desviei um único centavo do patrimônio público para meu enriquecimento pessoal ou de terceiros. Jamais fugi de nenhuma luta, por mais difícil que fosse, por covardia. E jamais traí minhas crenças, minhas convicções ou meus companheiros em horas difíceis.”

Esclarece a presidenta que jamais lutará pelo privilégio da Presidência e sim em nome de um princípio: defender a Constituição de 1988. Determina a Carta que o impedimento somente será justificado por atos gravíssimos, a configurar os crimes de responsabilidade, diretamente praticados pelo presidente da República.

A existência desses crimes, sublinha Dilma Rousseff, há de ser plenamente provada em um devido processo legal, para assentar a responsabilidade de quem os cometeu. Conforme a reportagem que se segue, reconstituição minuciosa do próprio golpe em andamento, verifica-se a inexistência de quaisquer provas além de um conjunto de falsidades de sorte a justificar que os designados a encaminhar o processo ao plenário do Senado para a sessão decisiva compõem, com todos os atributos necessários, a Comissão da Mentira.

A carta de Dilma Rousseff é texto impecável para denunciar uma monstruosa injustiça perpetrada não somente contra a presidenta, mas também contra o País e a Nação. Rasga-se a Constituição, liquida-se a esperança de democracia, enterram-se os ralos avanços conseguidos desde o fim da ditadura. E o engodo imposto aos brasileiros pelo golpe, de fato demole o regime presidencialista que rege a República, com a arbitrária decisão, tácita mas concreta, e como tal levada adiante pelo complô, de manchá-lo pelo uso de uma fórmula parlamentarista, inadequada além de falaciosa.

Não se trata de discutir os erros cometidos por Dilma Rousseff, e já criticados, em diversas oportunidades e às vezes asperamente, por CartaCapital. A começar pelo estelionato eleitoral cometido logo após a posse do segundo mandato ao convocar um bancário fiel do neoliberismo para o Ministério da Fazenda, com o transparente propósito de agradar ao deus mercado. Não há erro, de todo modo, que justifique o impedimento.

Sempre ocorre, ao evocar os mandamentos do presidencialismo, citar Bush Jr., aquele presidente que declarou guerra contra o Iraque de Saddam Hussein ao sabor de uma clamorosa e criminosa mentira, conflito que precipitou atrocidades sem conta e matou dezenas de milhares de soldados de um lado e de outro, sem contar as vítimas civis. Em momento algum, o Congresso americano cogitou do impedimento do presidente e muito menos o solicitou a opinião pública.

Este processo a Dilma Rousseff nos envergonha e ofende a todos, mesmo quantos não percebem suas implicações e não imaginam suas consequências.