27.7.16

O INJURIADO BARRABÁS

MARCELO MÁRIO DE MELO -


Numa grosseira malversação de fatos históricos, Barrabás tem sido tratado na cultura cotidiana, em aulas de religião, teatrinhos escolares e comunitários e espetáculos cênicos de médio e grande porte com o tema da Paixão de Cristo, como um reles bandido e assassino.

Na Palestina ocupada pelo império romano, o remador Jesus Barrabás integrava o agrupamento político dos zelotes, de orientação judaica radical, que exercia a resistência armada às tropas invasores por meio de emboscadas. Tratava-se de um dirigente político, um guerrilheiro.

Entre os que seguiam Cristo havia zelotes ou ex-zelotes atraídos pela sua mensagem e trazendo as suas marcas, como o andar armado com uma pequena espada, a sica. São Pedro tinha origem zelote e usou a espada contra um soldado, por ocasião da prisão de Cristo no Monte das Oliveiras.

Jesus Barrabás comandou uma ação armada na cidade de Carnafaum, que resultou na morte de um soldado romano e na sua prisão. Quando a população escolheu a sua libertação em lugar de Cristo, expressou um protesto contra o império romano. Não foi uma atitude decaída e degradante de apoiar o bandido e desprezar o profeta.

Os quatro evangelistas se referem a Barrabás. “Ora, havia naquela ocasião um prisioneiro famoso chamado Barrabás” / “Os anciãos persuadiram o povo que pedisse a libertação de Barrabás e fizesse morrer Jesus” (Mateus 27) “Havia um, chamado Barrabás, que fora preso com outros rebeldes, o qual na sedição perpetrara um homicídio” (Marcos, 15) “Este homem fora lançado ao cárcere devido a uma revolta levantada na cidade, e por causa de um homicídio” (Lucas, 23) “Soltou-lhes aquele que eles reclamavam e que havia sido lançado ao cárcere por causa do homicídio e da revolta... Barrabás era um salteador”
(João 18)

Num país ocupado e tendo de reservar um quinhão dos impostos recolhidos para os cofres do país invasor, seria natural o componente político assumir o primeiro plano numa resposta de massa, principalmente, num ajuntamento de multidão, como eram os julgamentos públicos daqueles tempos.

Por outro lado, Cristo ainda não era tão conhecido, além de ser um filho da terra, o que deu margem a manifestações de descrédito e o levou a lamentar que “ninguém é profeta em sua terra”. Ter agido mais sob a influência do momento político do que considerando a dimensão do cristianismo em termos amplos, pode ser objeto de crítica. Mas isto é muito diferente de escolher entre o bandido e o profeta, como mentirosamente se difunde.

Que se faça justiça a Barrabás.