11.7.16

O RECADO QUE VEM DE DALLAS

IGOR MENDES -

Cada classe interpreta os acontecimentos da vida de acordo com seus próprios interesses, embora a burguesia e toda reação esforcem-se por apresentar a sua própria posição como sendo comum a todas as classes. No cotidiano, vemos como assassinatos perpetrados pelas tropas oficiais são tratados como “excesso” ou “despreparo”, enquanto os justos atos de revide dos oprimidos – raros, se computarmos todos os episódios de violência aos quais são submetidos diariamente – são tachados imediatamente como “terrorismo”, “crime hediondo”, “barbárie”.

Por centenas de anos os negros, principalmente jovens, têm sido discriminados, linchados, presos e assassinados nos Estados Unidos. A despeito da luta invulgar que têm travado, que teve na emergência do movimento revolucionário dos Panteras Negras seu ponto mais avançado, essa situação segue inalterada. Os efeitos sociais do furacão Katrina, ou o assassinato, há dois anos, do jovem Michael Brown, em Ferguson, mostraram eloquentemente perante o mundo que a eleição de Obama, cujo governo é tão genocida e racista quanto seus antecessores, em nada modificou aquele quadro (e não poderia ser de outra forma).

Na semana passada mais dois homicídios covardes foram cometidos por policiais brancos contra jovens negros, os quais, em ambos os casos, estavam desarmados e rendidos. O roteiro seguiu a trajetória por todos conhecida: protestos, declarações de autoridades de que os casos seriam “investigados” e novas prisões... de manifestantes, naturalmente. Entretanto, como uma solução de continuidade, um fato estremecedor veio alterar radicalmente a situação: outro jovem negro, Micah Xavier Johnson, ex-combatente do Exército reacionário ianque, resolveu apontar as armas que aprendeu a manejar contra os autores dos massacres, deixando um saldo de cinco policiais mortos e sete feridos. Um dos policiais mortos, a propósito, Brent Thompson, 43 anos, atuou no treinamento das novas polícias afegãs e iraquianas, adestradas para auxiliar os agressores estrangeiros a massacrar e pisotear seus próprios povos.

O feito foi chamado pelo genocida Obama de “ato desprezível” e “covarde”. De nossa parte afirmamos, pelo contrário, que se tratou duma retaliação, uma justa ação de combate. Como se pode falar em covardia, quando os alvos foram militares em serviço, armados e treinados no massacre das massas desarmadas? Mais do que isso, tratou-se de uma ação heroica, porque só uma decisão profunda, motivada pelo mais genuíno sentimento de classe – lá, como aqui, são os negros pobres que morrem – pode gerar semelhante coragem para agir, e agir tão calculada e certeiramente, desprezando a morte quase certa.

Digam o que disserem, todos os que são humilhados, esculachados ou tiveram seus entes queridos assassinados friamente pelas forças “da ordem”, todos aqueles que são pisados e mil vezes relembrados do lugar de segunda ou terceira classe que ocupam na sociedade, sentirão que, ao menos, um dos seus ousou desafiar a impunidade, a opulência, a bota arrogante dos opressores; sentirão que um dos seus golpeou alguns deles, ainda que esse sentimento não seja imediatamente acompanhado de uma consciência segura e sistemática quanto às causas desse estado de coisas. E não há, afinal, maneira mais direta de remexer a consciência do que com fatos. Em várias cidades norte-americanas os protestos prosseguem, apesar do aparato de guerra mobilizado, e em pelo menos dois Estados (Misuri e Georgia) foram noticiados novos casos de disparos contra policiais.

Do ponto de vista do proletariado revolucionário, isto é, do marxismo, deve-se não apenas defender esta ação contundente, mas entender que acontecimentos tão dramáticos como esses não se produzem pela vontade individual de quem quer que seja, mas por circunstâncias excepcionais, no caso, o aprofundamento duma formidável situação revolucionária, que se desenvolve de modo desigual pelo mundo. Os planos do imperialismo ianque de promover uma “nova ordem” à sua imagem e semelhança, que convergiram nas sucessivas guerras de rapina travadas principalmente no Oriente Médio (mas não só), não apenas foram derrotados pela crescente resistência nacional dos povos agredidos, como levou a guerra para dentro das suas fronteiras mesmo. A guerra imperialista retornou à casa.

Que todos os imperialistas e reacionários tremam! Que não se confunda jamais a agressão dos opressores com a resistência dos oprimidos! A “paz” que nos querem impor é a “paz” das baionetas caladas, a “paz” que reina nos cemitérios. Encerramos lembrando o implacável libelo do grande Lênin contra os “pacifistas” e pseudo-socialistas, que se mostravam consternados perante a carnificina da guerra mundial, negando a necessidade de transforma-la numa guerra revolucionária:

“Uma classe oprimida que não aspirasse a aprender o manejo das armas, a ter armas, essa classe oprimida só mereceria que a tratassem como aos escravos. Nós, se não queremos converter-nos em pacifistas burgueses ou em oportunistas, não podemos duvidar que vivemos em uma sociedade de classes, da que não há nem pode haver outra saída que a luta de classes”. (V.I. Lênin, “O programa militar da revolução proletária”).

No Brasil, igualmente, o recado que vem de Dallas não tardará a ser ouvido.