21.8.16

O HERÓI NATIVO

Por MINO CARTA - Via CartaCapital -

o contrário de Macunaíma, matreiro contra a prepotência, Neymar é o intermediário da rendição inconsciente na festa irresponsável.


O futebol é diferente dos demais esportes disputados na Olimpíada. É o único em que o juiz soberano pode errar impunemente, em boa-fé, ou de propósito. Ou, por outra, no segundo caso e em linguagem direta, roubar. E me ocorre o nome de João Havelange, que entregou sua turva alma a Deus na manhã de terça-feira 16.

Ele foi dono do futebol mundial décadas a fio, mestre inexcedível na escalação de juízes corruptos e criador de um discípulo muito diligente, Joseph Blatter. De Havelange a Blatter, a Fifa foi uma bandalheira. Claro está que professor e aluno souberam encher os bolsos.

Com o desfraldado intuito de favorecer a seleção canarinho, Havelange tratou de arrumar diversas partidas dos Mundiais e o solerte Blatter não deixou por menos. O espírito daqueles senhores da Fifa esteve em campo no encontro Brasil-Colômbia dos Jogos Olímpicos cariocas.

O celebradíssimo Neymar agrediu literalmente um adversário e o juiz cuidou de não expulsá-lo. Evento similar deu-se no Mundial de 2014, na estreia do Brasil contra a Croácia. O mesmo Neymar deu uma cotovelada em um adversário no começo do primeiro tempo e não foi expulso. Posteriormente, o juiz ofertou dois gols de presente aos canarinhos.

Neymar é um bom jogador, arrisco-me, porém, ao acrescentar: bem menos do que pretendem a crônica esportiva e a torcida nativas. Por outro lado, parece-me tão pouco confiável em matéria de caráter que tendo a enxergá-lo como um herói típico da tragédia-bufa em andamento no País.

Nem por isso o comparo a Macunaíma, este caiu do ventre materno para a vida de misérias que lhe reservaram os senhores da casa-grande. Reagiu como podia. Neymar conta com o aplauso e o ouro dos senhores, mas o favor munífico não o engrandece.

Arrogante e subdoloso na violência, amiúde amarela, para usar um verbo comum no jargão do ludopédio. Quanto aos seus gols por gramados espanhóis, admitamos que atuar ao lado de Messi e Iniesta facilita.

Simbólico Neymar, herói de um povo espezinhado pela estulta prepotência de quem manda na certeza da incapacidade de reação da maioria macunaímica, em relação à qual os Neymares funcionam à perfeição.

Ora, direis, porque fazem parte dos circenses, recomendados pelo poder da antiga Roma para enganar o povo e mantê-lo quieto. Pois há algo mais: os Neymares são os intermediários da rendição inconsciente, da parva sujeição à vontade superior, qual estivesse escrita nas estrelas, e, portanto, irretorquível e definitiva.


É, aliás, o que está a ocorrer na festa olímpica. A par da mediocridade do esporte verde-amarelo, encena a festa na hora do enterro. Funeral de largo espectro. De triunfais sonhos esportivos. Há, porém, devaneios maiores, salvo análise mais acurada, cultivados por poucos, talvez, e mesmo assim decisivos, fundamentais, para o País e sua Nação.

Sonhos de democracia, de igualdade, de independência. Desfeitos no ar de festa de uma torcida que encara qualquer esporte como se fosse futebol e não se incomoda, assim parece infelizmente, com democracia, igualdade, independência.

Diante da prepotência, ou não se dá conta dela ou amarela. Incapaz, inclusive, de entender que, se falta um butim de medalhas olímpicas condizente com o tamanho do Brasil, a escassez se deve à ação de quem manda, ou à falta de ação.

Da senzala só sai mesmo quem aprende a chutar bola de meia, a casa-grande promove apenas modestos desempenhos olímpicos e se esmera para manter a tradição de um país exportador de matéria-prima, súdito do império.

Futebolístico é o tom da torcida, mesmo quando a refrega se dá no handball ou no badminton. Os cronistas urram e uivam, e o conjunto propicia um espetáculo nunca visto em Olimpíada alguma. Jornalista esportivo no Brasil mantém à risca as tradições da mídia nativa quando os brasileiros adentram a arena: não relata, não informa, torce. Muitos servem aos barões midiáticos, interessados na grande enganação. Alguns agem por conta própria, em boa-fé. E enganam a si mesmos.

*Publicado - 19/08/2016 - originalmente em CartaCapital.